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quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

Apresentação da Coleção Pensamento Preto Volume 5 – por Fuca

Apresentação do Livro Coleção Pensamento Preto 5 – 2021 [Fuca]

Coleção Pensamento Preto vol. 5

Vendas pelo Instagram da Editora Filhos da África

https://www.instagram.com/editorafilhosdaafrica/

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Já transcorremos um quinto do século 21, e a indagação contínua e sempre pertinente é a de: qual a direção que o povo preto está tomando?

Essa pergunta podemos fazê-la no âmbito doméstico de diáspora africana em que nos encontramos, como globalmente e sobretudo de olho no continente-mãe, África. A despeito de qualquer tipo de avanço individual ou de uma certa classe minúscula de uma burguesia negra, na ótica de povo como um todo, como nos encontramos no cenário mundial?

Dentre tantas questões que pairam em nosso dia a dia, escolher uma em um cenário de crise global, - de trabalho, de terra, de soberania alimentar, de habitação, de perspectiva em geral, e para agravar, sob uma pandemia mundial,- é uma tribulação em si. Que o sistema capitalista vigente vive em crise não deve ser novidade, pois, de fato, o baluarte do capitalismo se dá justamente pela manutenção das desigualdades sociais; o capitalismo se promove através de um desenvolvimento geográfico desigual 1 [e combinado,] independentemente de sua reinvenção nos processos de acumulação do capital ao longo dos tempos. Tal sistema em si já é um monstro e tanto, sobretudo para o nosso povo, pois o capitalismo é filho da Europa, e sua gênese remete às brutalidades do sequestro, do tráfico transatlântico e do comércio de africanos escravizados por 400 anos.

E não parou por aí, os europeus ainda impuseram a colonização do continente africano, configurando, principalmente, um embate civilizatório entre a Europa e os “Outros”. Se eles detinham motivações econômicas, eles também estavam imbuídos de uma pretensa supremacia branca. Em sua empreitada, o lema ‘nenhuma piedade’ era o que prevalecia, até devido a isso nenhum tipo de luta do nosso povo deve fazer apelo moral aos brancos, pois tudo isso não foi (e nem é) um problema para eles. Ao lidarem e promoverem a barbárie, apenas era necessário justificarem suas ações, e a manipulação estava pronta: levar o progresso e a civilização aos “selvagens” e “atrasados” – os “outros”.

Os estudos mais detalhados e clássicos acerca desse período de terror contra o povo preto, se encontram neste livro. Ademais, através da bibliografia da Coleção Pensamento Preto: Epistemologias do Renascimento Africano, em seus cinco volumes, é apresentado a evolução histórica da supremacia branca e suas invasões/conquistas por meio da destruição e interrupção do processo histórico-social preto-africano. Esse é um dos pontos que é possível compreender ao imergirmos nas diversas possibilidades de diálogos, que serão elencados aqui (parte deles) mais para frente.

Sobrevivemos a tudo isso, - “o maior milagre de todos os tempos!” -  tivemos muitos lutadores e lutadoras do nosso povo preto que ao longo dos séculos nunca apanharam calados, nunca aceitaram a subjugação dos nossos e por isso estamos aqui lutando hoje. Em deferência aos nossos irmãos e irmãs que preservaram nossa cultura através da religião africana, através das artes africanas, através dos clubes recreativos, associações e organizações comunitárias, ou de outra forma, através dos nossos quilombos físicos e ideológicos; 2 e dos pretos que se lançaram para contar, registrar e espalhar a nossa história sob o viés preto e de nossa luta pela vida. Motivados sobretudo pelo amor que mantiveram pela humanidade preta.

Agora, o que está implícito na questão inicial é justamente que precisamos fazer algo a mais como luta, outro tipo de projeto com mais propósito, que acaba desencadeando em outras perguntas: como podemos de alguma forma unir as várias frentes pretas na direção de uma construção genuinamente preta? A construção da nação preta. Como bem disse o irmão Robert Sobukwe, “Nunca poderemos fazer o suficiente pela África, nem poderemos amá-la o suficiente. Quanto mais fazemos por ela, mais queremos fazer.” Ou seja, é pelo amor aos pretos que devemos nos direcionar pela autodeterminação preta. Uma busca, um projeto, um destino declarado pelo Renascimento Africano. 3

Para pensar numa direção preta precisamos estar cientes dos nossos interesses enquanto povo e dos interesses dos outros em relação a nós. Quando falamos de interesse (ou mesmo agência) já recai uma grande dificuldade, pois para isso é preciso pensarmos e nos enxergarmos enquanto um povo em potencial principalmente pela cor da pele/fenótipo africano. Se não mais nos vemos enquanto povo é devido ao histórico mais recente de escravidão e colonização, e não tem como subestimar os esforços dos brancos nesse empreendimento sujo e nefasto – ou como caracteriza o Dr. Du Bois, “a mancha mais desprezível na história humana moderna”.

Portanto, ao nos livrarmos das brutalidades dos açoites, ainda carecemos da libertação da mente, então, em suma, uma das faces da relevância das epistemologias do renascimento africano é a descolonização mental, e nesse quesito a coleção pensamento preto fornece subsídios fundamentais de forma coesa e estabelecendo diálogos na dialética africana como um dos métodos, e promovendo uma ligação de continuidade de pensamentos, propostas, paradigmas, ações, etc.  Que não só visa resgatar os conhecimentos que não deveriam chegar até os pretos, mas que pretende não confundir o povo preto, e sim propor a leitura e análise crítica para o prosseguimento de nossos objetivos revolucionários enquanto povo preto, esforços que são conectados através da Revolução Preta Mundial 4 rumo ao Renascimento Africano.

Esses são conceitos fundamentais que evidenciam a direção de luta, que mostram a importância de ideologias, filosofias, pesquisas e teorias das ciências humanas e sociais que visem abarcar a particularidade preta e minar as confusões atiradas em toneladas pelos supremacistas brancos. O Dr. John Henrik Clarke neste volume vai nos dizer que: “Os povos Africanos de todo o mundo precisam de uma definição de história que possa ser operacional em diferentes lugares, em diferentes momentos e operacional em todos os lugares onde vivem os africanos. Por sermos as pessoas mais dispersas da face da Terra, nossa definição operacional de história deve ter um alcance universal, aplicável às pessoas em geral e especificamente ao povo Africano.” Essa definição deve estar calcada no próprio continente africano. Os pretos diaspóricos devem e necessitam lutar em seus respectivos territórios [inimigos], porém a base de luta é a África, da África fomos sequestrados; a África é nossa base civilizatória, ser africano é um privilégio e onde quer que desembarcássemos através da migração forçada, nossa luta foi constante pela liberdade, nossa resistência cultural foi imensa, não à toa um extenso aparato de destruição física e cultural foi desenvolvido pelos brancos para cometer o maior crime contra um grupo de seres humanos, o holocausto dos pretos, 5 sem misericórdia. O único continente que é a casa dos pretos é o africano, a vida em diáspora, muitas vezes, fará com que ocorra um distanciamento dos pretos em relação a sua casa, consubstanciado pelas campanhas das mídias em massa e da educação racista.

Por isso, como o irmão Malcolm X adverte certeiramente neste livro, “qualquer tipo de organização baseada aqui não pode ser uma organização eficaz. Qualquer coisa que você tenha a seu favor, se a base estiver aqui, não será eficaz. Sua e minha base devem estar em casa, e esta não é a nossa casa.” Veja bem, nosso irmão trouxe a perspectiva de um preto em diáspora nos EUA, e a despeito de particularidades existentes entre os Estados-nações em que os pretos se encontram, “a mancha mais desprezível na história humana moderna”, o colonialismo, o imperialismo, o neocolonialismo, o capitalismo, a destruição promovida pela supremacia branca é comum a todos os pretos no globo, infelizmente esse genocídio contínuo é ainda um fio condutor para a internacionalização da luta preta moderna. Obviamente, vem de tempos imemoriais os laços básicos de Unidade Cultural Africana, mesmo em um continente extenso, rico e diverso em cultura, línguas, grupos étnicos, etc.

E sobre essa Unidade Cultural da África Negra, a Dra. Lélia Gonzales, através de uma entrevista bem acurada e livre ao mesmo tempo, vai explicar a importância do trabalho e das pesquisas de Cheikh Anta Diop nesse campo; a Dra. Ifi Amadiume segue na mesma linha de tema, porém enfatizando o aspecto fulcral do matriarcado africano para a teoria da Unidade Cultural Africana. Por falar em matriarcado africano neste livro, nos remetemos também ao belo texto da irmã Ayana Omy, “O nascimento de uma comunidade.”

Dá para notar a diferença entre nosso interesse como povo preto-africano com o de qualquer outro povo? E a menos que estivermos estabelecido nossa bases de Nacionalismo Preto/Pan-Africanismo não há o que falar em lutar pelo interesses de outros povos, outras ideologias, filosofias, teorias e organizações. Os nossos desafios já são imensos, pois precisamos organizar a renascença africana numa perspectiva de longo prazo, e além da organização teremos o tensionamento das forças inimigas com todo o aparato que eles já demonstraram ser capazes de desferir por poder. Nossa ancestral, jornalista, organizadora e ativista Amy Jacques Garvey vai nos alertar aqui que: [os] “Homens no poder não clamam por orações ou apelos à consciência. Eles só respeitam a FORÇA igual à sua ou superior.”

Mais uma vez, em outras palavras, os interesses dos pretos sérios na luta devem ser pelo Poder, pela Terra, se valendo da Força oriunda de um Pan-Africanismo, no âmbito militar, econômico, cultural, industrial, cientifico, espiritual e político. O Dr. Clarke conclui: “A terra é a base da nação. Não há como construir uma nação independente e forte quando a maior parte da terra está sendo controlada por estrangeiros que também determinam o status econômico da nação. Os Africanos precisam estudar seriamente seus conquistadores e seus respectivos temperamentos. Nem os europeus, nem os árabes, vieram à África para dividir o poder com nenhum Africano. Ambos vieram como convidados, mas permaneceram como conquistadores.”

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Na disciplina geográfica este volume vai contribuir através dos textos de Malcolm X, Du Bois, Queen Mother Moore [ressaltando a importância da terra], Stokely Carmichael, e é muito interessante o papel que o espaço geográfico tomou através desses estudos, analises e falas. A geografia sendo ela mesma a síntese de várias outras disciplinas assume seu lugar não só na vertente meramente descritiva, mas com uma perspectiva ativa e crítica. No próprio Dr. Du Bois a abordagem do espaço está incrustada numa análise sociológica. Em suma, é evidenciada a importância da África não só pelo o que o continente produziu e desenvolveu por si mesmo, mas como também o que outros povos e impérios produziram em cima da África, ou baseado no continente africano.  Decerto, essa ideia contrapõe a visão determinista e racista de que nada nunca havia sido produzido na África, que nunca houvera civilização africana até a invasão europeia. A riqueza de detalhes do estudo do Dr. Du Bois faz dele um texto ainda mais indispensável.

Na disciplina antropológica temos contribuições precisas, com quebra de paradigmas e a própria problematização da antropologia como ciência. A Dra. Iva E. Carruthers ao evidenciar que o sistema de gestão da educação branca [séculos XIX e XX] comandado pelos liberais abolicionistas brancos ou pelos conservadores que apregoavam a perpetuação da escravidão nos EUA, concluiu que ambas as vertentes estavam ancoradas na pretensa supremacia branca, só diferiam na forma de alcançá-la – ou com uma atitude de segregação declarada ou de um paternalismo moderador. Com isso, em seu texto de 1977, ela apontou também para a necessidade crucial de estudar o comportamento dos brancos, uma espécie de antropologia reversa, já que a antropologia tem como objetivo estudar os “outros.” A Dra. Ifi Amadiume vai propor que seja abolida essa disciplina de antropologia, ao invés disso deveria se consolidar uma disciplina da história social africana. Mas, neste livro, foi a Dra. Marimba Ani quem contribuiu com um estudo avassalador sobre a concepção branca de sua autoimagem e da imagem dos “Outros.” Nesse estudo, publicado em 1994, a Dra. Marimba Ani vai desvelar que a essência cultural do Ocidente é de destruição, uma completa desarmonia com o mundo. Sendo assim, seu ethos e seu pensamento, seu comportamento e sua imagem, estarão relacionados consistentemente uns com os outros, ou seja, agem em compatibilidade para forjar um constructo ideológico particular e concernente da cultura europeia (brancos). Em linhas gerais, a autoimagem europeia necessita da inferiorização da imagem dos “outros,” no intuito de consolidar a supremacia branca. A irmã diz: “Nenhuma etnologia da cultura europeia pode, com honestidade, ignorar o significado da cor na mente dos europeus.” E não será agora que poderá ser ignorado. Portanto, nesse sentido, a antropologia e o cristianismo, por exemplo, seriam o sustentáculo da supremacia branca.

Na área da educação teremos a entrevista da saudosa ativista africana-americana Queen Mother Moore - reforçando a oralidade africana como metodologia de estudo – trazendo aspectos da busca pela educação na américa racista e segregada numa base vivida e empírica, fortalecendo a compreensão do estudo trazido pela Iva Carruthers e vice-versa. Abarcando a Guerra Civil americana, o período de reconstrução, restauração, Jim Crow, a luta pelos direitos civis, etc. Ainda, para esse período, o estudo do Professor Mestre Fábio Mandigo traz para o contexto dos pretos no Brasil a disposição de um quadro de análise em três paradigmas pretos em conflito, de três movimentos africano-americanos na condução de Booker T. Washington, Du Bois e Marcus Garvey.

A educação em qualquer lugar está a serviço das instituições de um determinado Estado-nação, agora se tal nação detém um passado escravista e colonialista sem que se tenha tido nenhum tipo de revolução preta, inferimos que esse sistema educacional é racista. Portanto, uma educação no Brasil e tão racista quanto nos EUA, mesmo que resguardada as devidas particularidades.

Robert Sobubwe em seu discurso no Colégio Fort Hare enfatizou diretamente o sentido da educação africana: “Você já viu o que a educação significa para nós: a identificação de nós mesmos com as massas. Educação para nós significa serviço à África. Em qualquer ramo de aprendizagem que você esteja, você está lá para a África. Você tem uma missão; todos nós temos uma missão. Temos uma nação para construir.” Em acréscimo, uma citação do Dr. Clarke diz: “O papel da educação é treinar o aluno para ser um manuseador responsável do poder”.

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Desse modo, para que um povo de passado colonial tenha um destino apropriado com seus interesses (agência), as epistemologias pretas devem estar a serviço da descolonização mental, - uma das etapas iniciais. O ancestral Malcolm X sabendo dessa problemática questionou os motivos de a conquista da liberdade para o povo preto sempre ter sido mais difícil. Como povo, carecemos da libertação da mente, isso influi nos programas e métodos em que lutamos, quase nunca de longo prazo e nem cristalizados em uma ideologia própria. Em seu discurso, o irmão Malcolm continua: “temos ainda de aprender as táticas, estratégias ou métodos adequados para trazer a liberdade à existência... Portanto, o que gostaríamos de fazer nas noites de domingo é entrar em nosso problema e apenas analisar e analisar e analisar; e questionar coisas que vocês não entendem, para que possamos, pelo menos, tentar obter uma visão mais nítida do que vamos enfrentar.”

O ex-presidente da Guiné, Sékou Touré, em um trecho de sua dialética da cultura, complementa essa lógica, para ele o povo africano precisa se “comprometer a reconquistar sua própria personalidade, negando os valores culturais que o despersonalizaram, descolonizando sua própria mente, seus costumes e suas atitudes, desmontando os sistemas filosóficos que justificam as dominações...” E continua, [a] “...luta pela liquidação dos vários complexos do homem colonizado, não se dissocia da fase seguinte – a da reconquista dos valores perdidos, dos bens negados e perdidos, atributos de um homem sensível que pensa e age de forma digna e ciente de suas potencialidades.”

Para Sékou Touré a cultura se vale como arma de libertação, e a define como sendo: “...todas as obras materiais e imateriais de arte e ciência, mais conhecimento, boas maneiras, educação, um modo de pensamento, comportamento e atitudes acumuladas pelo povo tanto através como em virtude de sua luta pela liberdade da posse e do domínio da natureza; ... Assim, a cultura é revelada como uma criação exclusiva do povo e uma fonte de criação, como um instrumento de libertação socioeconômica e de dominação.” Uma abordagem dialética da cultura é um texto muito importante no sentido de não abordar a cultura por um culturalismo esvaziado, ou seja, em negação do materialismo histórico e dialético.6

Sékou Touré vai discorrer, em suma, sobre a relação da busca material e que para se fazer tal busca é necessário um conjunto de ideias. Ou seja, mesmo obtendo a primazia do bem-estar material para então se obter o desenvolvimento intelectual, este último se faz necessário na busca das necessidades físicas. “O curso da história e a sucessão do desenvolvimento da cultura Africana refletiram de perto o curso do desenvolvimento das forças produtivas.” Sendo que, as emoções e mesmo os reflexos em um dado momento histórico são fundamentalmente postos em movimento pela razão, a fim de alcançar objetivos bem definidos.

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Irmãs e irmãos, procurei apresentar alguns tópicos dentre tantos existentes, espero que possamos perceber como está implícito um modo africano de lidar com os campos científicos, ou seja, a busca de pesquisas e análises interconectadas e interdisciplinares, 7 não como caixinhas extremamente fragmentadas. Por fim, o foco da questão inicial pode mais uma vez ser visto em mais essa citação do Dr. Clarke: “No novo interesse no Pan-Africanismo que está ganhando força em todo o mundo Africano, a intenção dos Africanos não é apenas mudar sua definição na história do mundo, mas também mudar sua direção. A esperança deles é que o Pan-Africanismo se espalhe para além de sua estreita base intelectual para se tornar a motivação para uma União Mundial Africana. Isso começará quando reconhecermos que não somos ‘de cor’, ‘negros’ ou ‘pretos’. Somos um povo Africano onde quer que estejamos na face da terra.”

Desejo-lhes boa leitura! Um forte Abraço! Axé!

Notas:

1. Sobre esse conceito, ver David Harvey, “Crise na economia espacial do capitalismo: a dialética do imperialismo”, em Os limites do capital. São Paulo: Boitempo, 2013 (pp. 599-641, edição e-book), conceito adaptado a partir do ‘desenvolvimento desigual e combinado’ de Leon Trotsky... mas vale e deve lembrar que os nossos próprios pensadores pretos vão desenvolver aqui mesmo nesse livro as relações de enriquecimento da Europa e seus satélites sobre a pilhagem e subdesenvolvimento do continente africano e dos povos indígenas, através do roubo da força de trabalho, dos bens naturais/minerais e da terra desses povos. Contudo, falar sobre o desenvolvimento geográfico desigual é se opor ao dito determinismo geográfico, em outras palavras, ao invés do determinismo se existe condições que foram determinadas, ainda que existam as diferenças (de espaço, humanas e sociais) as desigualdades foram e são produzidas por um dado sistema. Ver também Walter Rodney, Como a Europa subdesenvolveu a África. Lisboa: Seara Nova, 1975.

2. Como aponta nossa ancestral, quilombola e intelectual Beatriz Nascimento: “No final do século XIX, o quilombo recebe o significado de instrumento ideológico contra as formas de opressão. Sua mística alimentar o sonho de liberdade de milhares de africanos e seus descendentes escravizados (p. 289) ... A retórica do quilombo, a análise deste como sistema alternativo, serviu de símbolo principal para a trajetória deste movimento. Chamamos isso de correção da nacionalidade: a ausência de cidadania plena e de canais reivindicatórios eficazes, a fragilidade de uma consciência brasileira de povo, todos esses fatores implicaram numa rejeição do que era então considerado nacional e dirigiu esse movimento para a identificação da historicidade heroica do passado.” (p.291). Ver Beatriz Nascimento – Quilombola e Intelectual: Possibilidade nos dias da destruição. Diáspora Africana: Editora Filhos da África, 2018.

3. Em O Pan-Africanismo: apontamentos e reflexões, de Abiogun látúnjí Odùduwà, é revelado que, “O conceito de renascença africana ou renascimento africano foi proposto e elaborado por Cheikh Anta Diop em uma série de ensaios produzidos a partir de 1946 e, posteriormente, organizados em uma obra única com o título Towards the African Renaissance: Essays in Culture and Development, 1946-1960. Londres: Espólio Cheikh Anta Diop; Karnak House; 1996... O renascimento africano, para Cheikh Anta Diop, seria uma série de ações políticas, culturais, intelectuais, econômicas e militares que tinham como objetivo o fortalecimento das pessoas pretas e do continente africano, assim como a construção dos Estados Unidos da África, nas estruturas do pan-africanismo” (Editora Filhos da África, 2019, pág. 11). Ver também Cheikh Anta Diop, “Quando podemos falar de um renascimento africano?”, em Coleção Pensamento Preto: Epistemologias do renascimento africano, volume IV. Diáspora africana: Editora Filhos da África, 2020 (pp. 128-138).

4. Ver: ODÙDUWÀ, Abisogun Olatunji. Às Irmãs: Mulheres africanas na revolução preta mundial. Diáspora Africana: Editora Filhos da África, 2019. "Como revolução preta mundial entendemos todas as movimentações realizadas por seres humanos pretos, de ambos os gêneros e de todas as orientações sexuais, em suas buscas por dignidade humana, liberdade, direito à educação, resgate e manutenção da cultura, organização social, luta política e armada, vivência plena, defesa de suas terras, etc., nos últimos cinco séculos. (pp. 27-28)”

5. JONES, Del. The Black Holocaust: Global Genocide. Philadelphia: Hikeka Press, 1992. Livro contundente, combativo e importante na busca e na forma de lidar e revelar os aspectos do Holocausto dos Pretos. Imbuído do Pan-Afrikanismo, o correspondente de guerra não dá margem pra supremacia branca. Escravidão e colonização representam o genocídio; Leopold, Stanley, Rhodes, Kaiser – Genocidas; Aparato militar do imperialismo, suposta Guerra às Drogas e outras armas de destruição em massa – Genocídio Global de pretos. Agora, veja o que aponta Du bois em “África- seu lugar na história moderna,” e perceba se não foi um holocausto: “Provavelmente cada escravo importado representou em média cinco cadáveres na África ou em alto-mar; o comércio de escravos americano, portanto, significou a eliminação de pelo menos 60 milhões de pretos de sua pátria. O comércio de escravos maometano significava a expatriação ou migração forçada na África de quase tantos. Seria até conservador, então, dizer que o comércio de escravos custou à África Preta 100.000.000 de almas. E ainda assim as pessoas perguntam hoje a causa da estagnação da cultura africana desde 1600!”

6. Para complemento sobre o método. Ver: ODÙDUWÀ, Abisogun Olatunji. “Dialética da Revolução Africana” em O Levante dos nossos filhos: uma contribuição à revolução pan-africana. Diáspora Africana: Editora Filhos da África, 2020. (pág. 346-443) Após refutar que o método dialético seja produto do ocidente, Abisogun postula que: “A dialética que vamos apresentar aqui consiste no enfrentamento entre brancos e pretos, representado pela supremacia branca e seu projeto civilizatório de um lado (na condição de tese) e a resistência africana, por meio do pan-africanismo e construção do renascimento africano, de outro (na condição de antítese); gerando com essa movimentação conflituosa uma síntese, a ser interpretada e definida apenas no porvir (pág. 359).”

7. Para ‘Notas de uma pedagogia e de um currículo africano-centrado’, com seu domínio holístico através de um inventário temático africano-centrado: I. Espiritualidade e o Psicoafetivo; II. Cultural e Ideológico; III. Sociopolítico e Econômico; Ver Kwame Agyei Akoto. Nationbuilding: Theory and Practice in Afrikan Centered Education. Pan Afrikan World Institute, 1992. Agyei Akoto traz sua experiência de 20 anos na NationHouse, uma organização baseada na comunidade e Afrikano-centrada, fundada no início dos anos setenta com raízes no movimento estudantil ativista do final dos anos sessenta na Universidade Howard. A organização opera uma escola independente, um consultório médico, um acampamento de verão Afrikano-centrado, um programa para jovens depois da escola, e organizou uma cooperativa de desenvolvimento de terras.


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

Burkina Faso lançou seu primeiro banco central desde a independência - [Notícia]

Na sexta-feira, 2 de agosto de 2024, o governo de Burkina Faso estabeleceu o Treasury Deposit Bank, seu primeiro banco central desde 1960.

Conforme declarado pela Uplifting Africa, o Treasury Deposit Bank fornecerá serviços a instituições públicas, empresas governamentais, projetos e programas financiados pelo governo, empresas privadas e organizações não governamentais.

Ao oferecer contas bancárias pessoais e gerenciar recursos governamentais, o banco central agilizará as transações financeiras públicas e privadas da nação.

De acordo com o Correio da Kianda, um dos objetivos do banco central é acabar com o franco CFA, um símbolo da colonização francesa.

Sinalizando o plano de Burkina Faso de estabelecer sua própria moeda, o capitão Ibrahim Traoré, homem forte do governo militar, anunciou:

"Não haverá mais exportação de ouro para processamento em países estrangeiros. O ouro de Burkina Faso será usado para respaldar a moeda do país."

Conforme delineado pela AI Overview, como o quarto maior produtor de ouro da África, Burkina Faso terá uma refinaria de ouro que produzirá 150 toneladas de ouro 99,99% puro anualmente até final de 2024.

A refinaria é uma joint venture entre o governo burkinabê e duas refinarias locais.

Em setembro de 2023, Burkina Faso, juntamente com Mali e Níger, tornou-se membro do pacto de defesa mútua chamado Aliança dos Estados do Sahel (AES).

Em dezembro de 2023, o homem forte nigerino, general Abdourahamane Tchiani, observou:

“Além do domínio da segurança, nossa aliança deve evoluir no domínio político e no domínio monetário.”

Conforme mencionado pela Reuters, os ministros das finanças das nações da AES recomendaram o estabelecimento de um fundo de estabilização e banco de investimento conjuntos.

Em referência ao franco CFA, Tchiani disse em uma entrevista em fevereiro: "A moeda é um primeiro passo para nos libertarmos do legado da colonização".

De sua parte, Traoré declarou de forma semelhante durante uma entrevista em fevereiro que:

"Não é apenas a moeda. Qualquer coisa que nos mantenha na escravidão, nós romperemos esses laços".

https://youtu.be/aiTPa7SLFio?si=qwu3aOQrea9KGCoF

 

sábado, 25 de janeiro de 2025

Discurso do Capitão Ibrahim Traoré em Gana (Janeiro 2025)

O presidente de transição de Burkina Faso, Capitão Ibrahim Traoré, virou manchete após receber a "maior ovação" entre os presidentes africanos visitantes durante a posse do Presidente John Mahama de Gana no último dia 7, terça-feira, janeiro de 2025.

Discurso do Capitão Ibrahim Traoré em Gana (Janeiro 2025)

Gostaria de desejar a vocês um feliz ano novo. Que Deus lhes conceda uma vida saudável. Que Deus permita que todos os seus negócios sejam bem-sucedidos. Que vocês sejam prósperos. Que haja união e amor em suas respeitadas famílias e entre vocês. Que Deus os proteja durante todo este ano de 2025 e os ajude a realizar sonhos.

Gostaria também de prestar homenagem às nossas valentes forças de combate, que lutam com seus corpos e almas - como vocês podem ver - para que nosso Burkina Faso permaneça de pé. É um trabalho nobre. Os homens são essenciais, toda vez que vão para a batalha, eles sabem que alguns ficarão, mas o dever os chama, esse é o trabalho do exército.

Presidente Ibrahim Traoré 

Muitas vezes somos nostálgicos, mas aqueles que têm a chance hoje de defender Burkina Faso devemos encorajá-los e aplaudi-los, quando eles me deixarem, não chorarei por eles, mas vamos nos compadecer deles em nosso destino. Se chorarmos por eles, devemos vingá-los.

Preste homenagem a eles o máximo que puder, porque isso não permite que ninguém saia de casa e enfrente o perigo, sabendo que pode não retornar à noite. Mas é isso que eles fazem todos os dias, eles juraram defender nossa querida pátria, até o sacrifício final nas forças de combate para manter sua palavra.

Hoje, mais do que nunca, nossas forças armadas vão aonde querem. No momento em que estou falando com vocês, há várias operações por meio de vários grupos. E estamos infligindo perdas colossais ao inimigo e gradualmente os empurrando para fora de Burkina Faso. Venceremos a batalha, esta guerra, e superaremos o imperialismo, que ativou o terrorismo em nossa região para nos colocar de volta aos tempos coloniais, para nos manter sob seu controle e nos explorar até o fim dos tempos.

A África está acordando e ninguém poderá fechar os olhos dos africanos sobre nossas realidades. Ninguém poderá chegar e nos dividir, nem impor o que quiserem sobre nós. Fizemos o máximo para estar aqui hoje para falar com vocês. Mas também para vir e desejar ao presidente John Mahama uma boa transição. Desejamos a ele uma boa transição porque há muitos desafios que o aguardam e espero que vocês possam acompanhar seus irmãos aqui.

O pan-africanismo é uma batalha bastante complexa, mas para vocês, o povo, é muito fácil liderar bem esse pan-africanismo porque os povos devem amar uns aos outros, os povos devem apoiar uns aos outros.

O problema do pan-africanismo está muito frequentemente entre nós, os líderes. Mas colocaremos tudo isso em prática para que os líderes possam seguir na direção de seu povo. Porque o povo já está integrado, ele é pan-africano.

Se hoje Gana decidiu ter o presidente John Mahama à frente do país, é uma mensagem forte. E eu desejo que vocês, burkinabês que vivem em Gana, possam acompanhar o presidente John Mahama.

A tarefa será difícil, certamente haverá desafios no nível de segurança e no nível econômico, desejo que vocês possam acompanhar as forças de defesa e segurança em Gana o máximo que puder. Tanto no nível de inteligência quanto no nível econômico, como se estivessem apoiando as forças armadas burquinenses.

Estou lhe dizendo algo: os desafios podem ser muito numerosos, mas em nenhum caso vocês devem perder a esperança, vocês devem acompanhá-los e ajudá-los em todos os níveis. A nação não sobrevive enquanto não tiver um exército forte. É por isso que eu reitero a vocês novamente para apoiar as forças de defesa e segurança em Gana. Eles são os únicos que podem ajudar o país a subir na escala econômica e a prosperar.

Então peço-lhes que amem as pessoas daqui para que vivam em perfeita simbiose, em perfeita harmonia, como vocês já estão fazendo muito bem. Como eu disse, os povos já estão integrados, o problema está no nível dos líderes. Continuem nessa direção, apoiem seus irmãos em Gana, o máximo que puderem e, acima de tudo, mostrem essa integridade. Um país de homens íntegros, vocês devem ser modelos.

O Burkinense não deve criar um problema, o Burkinense deve ser uma solução. Vocês sempre souberam se comportar bem por meio de todos os seus líderes aqui presentes e eu desejo que essa dinâmica continue e que vocês possam acompanhar o novo presidente em sua enorme tarefa de reavivar a economia do país e, acima de tudo, defender este país.

Trabalharemos juntos para fortalecer a cooperação entre Burkina e Gana e também entre a AES [Aliança dos Estados do Sahel] e Gana porque temos muitos desafios juntos e sempre fomos capazes de superá-los. A chegada do novo presidente deve ser um momento para aquecermos essas relações e levá-las ao mais alto nível. Nos próximos dias, poderemos ver o que pode ser feito em benefício dos burkinenses.

Tanto internamente quanto aqui, as preocupações levantadas pelo representante são preocupações atuais e acho que o Ministério das Relações Exteriores está trabalhando para conseguir reorganizar a diáspora para que possamos resolver esses problemas o mais facilmente possível. É por isso que os conselhos foram estabelecidos. E os documentos administrativos e outros documentos que vocês precisam para expressar sua nacionalidade estão sendo modernizados, se você acompanhou as notícias.

Costumávamos ter documentos, mas não eram seguros o suficiente. Hoje, estamos em uma dinâmica de proteger todos os documentos de identidade no país. Mas também no espaço nos EUA e harmonizá-los. É por isso que demora um pouco, mas em janeiro normalmente deve ocorrer uma reunião com especialistas para esclarecer essa questão dos documentos de identidade. E esperamos que até lá vocês consigam ter sua nacionalidade como deveria ser: Burkina Faso.

Burkina Faso está comprometido com um caminho que vocês conhecem, um caminho difícil talvez, cheio de obstáculos. Mas tenha certeza de que vocês nunca devem perder a esperança. Vocês nunca devem ter medo. Vocês nunca devem duvidar nem por um momento. De onde vocês estão, ouvimos seu apoio, sentimos isso. E toda a população local sente o apoio da diáspora. E estamos felizes em poder continuar nessa direção para motivar seus irmãos internos e que possamos juntos restaurar Burkina Faso.

Temos um sonho e esse sonho será uma realidade em um futuro muito próximo. O terrorismo acabará, desenvolveremos nosso país. Desenvolveremos nossas indústrias e tornaremos mais fácil para vocês, investidores, virem e investirem no país em condições seguras. E nas facilidades econômicas que vocês desejam.

Não esquecemos disso durante a última fase do fórum da diáspora, portanto, estamos tentando ver tudo o que pode ser reunido para permitir que vocês venham e invistam facilmente para o benefício de seus irmãos. Porque somos um país importador e continuamos dizendo isso hoje, a dinâmica é ser capaz de transformar nossa sociedade. Vocês têm a chance de estar em Gana, Gana é um país genial e acho que muita tecnologia pode ser transferida daqui para o país.

Então estamos esperando por vocês, assim como nós, que estamos desenvolvendo para inserir os jovens de volta à produção, especialmente à produção agrícola, e à transformação (processamento), porque não podemos imaginar que neste século XXI continuaremos a importar quase todos os nossos alimentos do exterior, enquanto temos um enorme potencial de terra.

Este ano vivenciamos a parcela que foi garantida. Estamos satisfeitos com os resultados. Isso significa que no ano que vem, se Deus quiser, continuaremos a dar nosso apoio ao mundo camponês, mas especialmente aos jovens empreendedores agrícolas que querem entrar na produção e incentivar essas indústrias de transformação.

Burkina Faso brilhará. Burkina Faso será grande, nosso sonho se tornará realidade se Deus quiser.

E eu os encorajo a permanecerem unidos, unidos entre si e unidos com aqueles que os acolheram aqui. Estejam unidos com seus irmãos africanos. Estamos reativando o instituto dos povos pretos porque a África tem a mesma história, somos tratados da mesma forma pelos imperialistas. Não há razão para não estarmos unidos e bloquearmos o imperialismo. Fiquem unidos, fiquem unidos e mostrem que vocês são Burkina Faso onde quer que estejam.

Muito obrigado!

Fonte:

https://www.youtube.com/watch?v=mNkK2xQRSQU

quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

Níger e a Revolução no Sahel Africano - Entrevista

Níger e a Revolução no Sahel Africano

Por José Ernesto Nováez Guerrero

[06.02.2024 - Entrevista com o jornalista e pesquisador espanhol Alex Anfruns] 

Para entender o que está acontecendo naquela porção do imenso continente africano, conversamos com o jornalista e pesquisador espanhol Alex Anfruns.

O Sahel é uma região da África subsaariana que, como a maior parte do continente africano, raramente ocupa um espaço noticioso na grande mídia cartelizada do Ocidente. É uma região pobre, onde o jihadismo e as consequências das forças coloniais e neocoloniais têm causado estragos.

Recentemente, no entanto, três países ganharam as manchetes por uma série de golpes de estado que levaram aos governos nacionalistas e pan-africanos. O mais recente deles no Níger, ocorrido em julho de 2023, levou até mesmo à Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), uma organização na qual a França tem grande poder para ameaçar uma invasão militar do país.

Para entender o que está acontecendo nessa porção do vasto continente africano, conversamos com o jornalista e pesquisador Alex Anfruns. Alex é espanhol, mas morou na Bélgica, França e atualmente trabalha como professor em Casablanca. Ele dirigiu o Journal de Notre Amérique e foi editor-chefe do meio de comunicação Investi'action (2014-2019). Ele é coautor do livro “Nicarágua: Revolta Popular ou Golpe de Estado?” (2019) e do documentário “Palestina: A Verdade Sitiada” (2008). Seu livro de pesquisa mais recente é intitulado “Níger: Outro Golpe de Estado ou Revolução Pan-Africana?”

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Pergunta: A situação no Níger capturou a atenção da grande mídia ocidental após o golpe de estado ocorrido em 26 de julho de 2023, que foi conectado a processos semelhantes no Mali e em Burkina Faso? Qual era a situação no Níger antes do golpe e quais fatores foram necessários? Explique o que aconteceu.

– Desde as primeiras horas após o golpe de Estado no Níger, ficou claro que este não era "mais um golpe". Houve uma cascata de declarações da mídia em defesa do presidente deposto, Mohamed Bazoum, e contra os militares que proclamaram sua ação como "o Conselho Nacional para a Salvaguarda da Pátria" (CNSP).

Mas, em outras palavras, ocasionalmente, diante de golpes de Estado e ditaduras de longa duração na África, a França se acostumou a reações mais discretas ou mesmo favoráveis. Por exemplo, no Chade, após a morte do ditador Idriss Déby em abril de 2015. 2021 viu a sucessão de seu filho ao poder. Então, o que Macron fez? Ele se apressou para ir e legitimar seu grande aliado.

Por que houve tanta agitação dessa vez? Desde o advento dos governos militares no Mali e em Burkina Faso, a presença da França no Sahel sofreu um retrocesso histórico, materializado com a expulsão das tropas da "Operação Barkhane" do território malinês. Consequentemente, a estratégia antiterrorista da França na região foi completamente deslegitimada, e o exército nigerino se viu diante de um dilema: defender uma visão nacionalista ou se submeter a uma estratégia fracassada. Por um lado, como aliado da França no Níger, Bazoum acolheu algumas dessas tropas expulsas na base militar francesa em Niamey. Por outro lado, Bazoum tinha uma atitude suspeita em relação a grupos como parte de um programa de "desradicalização", que alguns analistas perceberam como apoio a esses grupos para desestabilizar os países vizinhos.

Era impossível para os militares nigerinos darem as costas aos países vizinhos. É na área da "Tríplice Fronteira" entre esses três países, conhecida como Liptako-Gourma, onde ocorre o maior número de atividades terroristas. E os militares nigerinos tinham a necessidade vital de cooperar com seus países vizinhos. Poucos meses antes do golpe, o Chefe do Estado-Maior do Exército nigerino Salifou Mody visitou o Coronel Assimi Goita do Mali para fortalecer a cooperação mútua. Essa visita levantou preocupações.

Poucos dias depois, Bazoum o demitiu de seus deveres e responsabilidades, nomeando-o para um posto diplomático nos Emirados Árabes Unidos. Essa demissão pode ter sido causada pelo medo de que Mody estivesse por trás dos preparativos para um golpe de estado militar. Os ingredientes foram reunidos para o golpe de estado. Mas restava saber se seria uma "revolução palaciana" ou uma mudança real de curso...

P: A grande mídia interpretou o que aconteceu no Níger no contexto da luta geopolítica entre a Rússia e o Ocidente, basicamente como um movimento nessa luta. Como resultado da pesquisa: Qual é a natureza e as particularidades do seu livro recente? E políticas do governo constituídas no país após o golpe? Qual tem sido sua evolução até o presente?

"De fato, uma linha de interpretação que prevaleceu na mídia hegemônica após o golpe de Estado foi que isso se deveu a disputas internas de poder. Em suma, segundo essa abordagem, o golpe que foi realizado de forma limpa e sem derramamento de sangue, foi protagonizado por atores conhecidos, comandantes de alto escalão do exército que só puderam agir por ânsia e para compartilhar uma parcela mais substancial da corrupção, fenômeno que infelizmente é generalizado no país. No entanto, que os militares entrem em cena com uma clara visão nacionalista, considerando que devem cumprir uma missão histórica na recuperação de sua soberania nacional... isso não se encaixa nos esquemas de propaganda eurocêntrica. É mais econômico sacudir o espectro da russofobia. Mas apresentar a Rússia como se estivesse por trás de toda manifestação popular africana é contrário ao senso comum.

Há uma razão pela qual tal anti-CNSP se apega aos seus.. [treze]: entender as verdadeiras motivações daquele golpe também envolveria explicar as razões das transformações no curso em Mali e Burkina Faso. Para a grande mídia, há apenas um discurso: Seja o que for, esses soldados são "demagogos", "populistas", "soberanistas"... De acordo com esse ponto de vista, eles estariam usando para seus próprios fins pessoais o "sentimento anti-francês" dos povos da região.

Obviamente, a explicação é outra: estes Líderes surgem como a expressão concreta e determinada das reivindicações Populares. Qualquer observador da realidade africana sabe que os povos da África se manifestam há anos contra os mecanismos de dominação neocolonial como o Franco CFA. No caso do Níger, uma das reivindicações tem sido o encerramento das bases militares estrangeiras, em particular a base francesa na capital, Niamey.

Se formos julgar um governo por suas ações, eu o farei: ele se qualificaria como um governo nacionalista com amplo apoio popular. Desde o primeiro poucos dias após o golpe, um governo de transição foi formado, peões no tabuleiro de xadrez sem qualquer hesitação, em meio a sanções e uma ameaça de intervenção militar da CEDEAO, que foi apoiada por ativos da França e dos Estados Unidos.

Manifestações diárias em Niamey mostram que, apesar de todo o sofrimento que os atores regionais estavam prontos para infligir ao povo nigerino, o governo do CNSP havia tomado o poder para atender às suas demandas sem ceder à chantagem. Essa lição de dignidade do CNSP foi o resultado de ouvir o povo. Para as páginas mais infames da história, haverá declarações como a da italiana Emmanuela Del Re, representante da UE no Sahel, que argumentou que sanções que levam à escassez de medicamentos, alimentos ou eletricidade "são úteis e eficazes para enfraquecer a junta [governo interino] no poder".

Nos meses que se seguiram, ficou claro que o CNSP não agiu de forma improvisada, mas suas ações responderam a uma visão política pan-africana cheia de maturidade e clarividência. A ameaça da CEDEAO de formar uma coalizão militar africana para intervir no Níger, foi afundada na lama, deixando claro que era um organismo a serviço de interesses estrangeiros, ou melhor, um mero instrumento neocolonial da França.

Acima de tudo, Mali e Burkina Faso reagiram com uma mensagem de solidariedade dotada de grande força moral para milhões de africanos: "Sim, se eles estão mexendo com o Níger, então eles estão declarando guerra contra nós também." No dia 16 de setembro, apenas um mês e meio após o golpe, a criação da Aliança dos Estados do Sahel. Uma iniciativa formidável que visa não apenas a cooperação militar entre Mali, Burkina Faso e Níger, mas também o compartilhamento de projetos de desenvolvimento econômico no Sahel e até mesmo a perspectiva de união monetária. Em apenas algumas semanas, é como se a história africana tivesse acelerado por várias décadas.

Depois disso, o curso dos acontecimentos fluiu de acordo com a vontade do povo: expulsão do embaixador francês, anúncio da retirada definitiva das tropas progressivamente até 31 de dezembro de 2023... Mas também várias medidas como a anulação do acordo de não tributação da dupla tributação com a França, que havia permitido que suas empresas se beneficiassem de privilégios históricos, o fim do acordo de migração com a União Europeia ou o fim do contrato de distribuição de água do Níger com a multinacional Veolia.

Retorno à pergunta inicial sobre a Rússia: no meu livro, dediquei um capítulo inteiro para responder a essa propaganda antirrussa na África. Encarei os diversos aspectos do projeto com a seriedade que ele merece. Papel histórico e atual das relações russo-africanas, perdão de dívidas, comércio de armas, assistência técnica, cooperação de defesa, transferência de tecnologia... Uma coisa deve ficar clara: após a intervenção na esteira dos militares na Ucrânia, os países africanos se recusaram a aderir às sanções contra a Rússia. Vamos falar sobre a realidade: as relações russo-africanas abrem o horizonte para o desenvolvimento da indústria nuclear em vários países africanos.

P: O jihadismo é um problema complexo, com ramificações extensas na região do Sahel. Quais são as raízes desse problema? e como ele afeta o país e a região?

O primeiro capítulo do meu livro, cujo tema é o Níger, é dedicado à origem da desestabilização no Sahel. Ali analiso as causas do fracasso da intervenção francesa no Mali em 2012, citando diferentes testemunhos que apontam para a continuidade entre a guerra na Líbia e a ameaça de partição territorial do norte do Mali, que chegou a justificar a presença militar francesa no país.

Deve-se saber que até mesmo os comandantes militares franceses seniores admitiram a porosidade entre os chamados grupos "jihadistas" e os setores rebeldes tuaregues. Apesar do fato de que quase uma década após a operação francesa, o problema no Mali tornou-se mais difícil de se entrincheirar. O exército malinês foi até impedido de entrar em Kidal, em uma das tentativas de recuperar a soberania sobre seu território nacional. Isso foi percebido pelos militares nacionalistas, entre os quais o Coronel Assimi Goita, como uma verdadeira afronta.

Voltando ao fenômeno do "jihadismo", o antigo presidente Bazoum tinha um conhecimento preciso dessas engrenagens. Ele explicou o círculo vicioso que engendra esse problema: primeiro, a falta de acesso à educação, que está relacionada às altas taxas de fertilidade e pobreza no país. Ele também explicou que os jovens pastores cuja situação havia sido agravada pelas mudanças climáticas, em vez de ficarem de olho em suas vacas, de repente eles podiam pegar um rifle e sair em uma motocicleta para extorquir dinheiro dos moradores de outra cidade. Bazoum estava certo ao insistir que essa motivação tinha muito do ideal romântico, que o discurso da religião era usado apenas no nível da hierarquia desses grupos, mas não desempenhava o menor papel no recrutamento de jovens para a base, e que esse fenômeno estava mais próximo do banditismo.

De fato, em uma entrevista conduzida um pouco antes do golpe de estado, Bazoum admitiu que estava em contato com os "sublíderes" desses grupos "jihadistas". O que foi capaz de convencer os militares nigerinos de que, em vez de combater o terrorismo, a estratégia no Sahel era baseada em promovê-lo, já que mais e mais pessoas estavam afirmando atores institucionais no Mali e em Burkina Faso. Em todo caso, como líder que foi cegamente encarregado da implementação das políticas do FMI no Níger, Bazoum não tinha a menor vontade de realmente melhorar o destino do povo nigerino.

A união dos esforços de três países que compartilham o mesmo problema em suas áreas de fronteira deveria ser uma boa notícia. Mas uma coisa estranha acontece: a grande mídia silencia as vitórias colhidas pelos exércitos nacionais, como a captura de Kidal em 14 de novembro de 2023 ou a Batalha de Djibo em 26 de novembro de 2023. E ao mesmo tempo amplia os erros das operações militares africanas, mostrando que são invariavelmente apresentadas como massacres contra a população civil. Como acontece frequentemente em operações de guerra, é difícil separar a realidade da propaganda. Admitamos que é uma atitude necessária para que os cidadãos não tomem literalmente tudo o que dizem os comunicados militares. Mas a insistência com que tentam deslegitimar as ações dos exércitos do Mali, Níger e Burkina Faso deve fazer-nos ter cuidado com essa abordagem simplista da grande mídia.

P: O processo no Níger, Mali e Burkina Faso parece ser anticolonial e pan-africano por natureza. Pelo menos isso fica claro nas declarações de seus principais líderes e sua firme rejeição à presença de europeus (principalmente franceses) e americanos na região. Como você faz isso?

– A próxima geração de líderes dos Estados do Sahel inclui várias das demandas históricas do pan-africanismo, incluindo a criação de um exército africano comum ou a valorização de seus recursos nacionais em relação a projetos de desenvolvimento, industrialização e infraestruturas estratégicas. Parafraseando Lenin quando ele disse que o comunismo é "o poder dos sovietes mais a eletricidade"... no caso do Sahel, os pan-africanistas têm seus olhos postos na dominação da tecnologia e no desenvolvimento da energia nuclear. Sua disposição de pôr fim ponto por ponto ao status quo imposto a eles pelo antigo mestre colonial aos pais fundadores dos estados africanos após a independência de 1960.

No meu livro, analiso um dos documentos-chave, os "Acordos de Defesa de 1960-61", que deixaram as mãos e os pés amarrados aos novos países africanos, no que diz respeito à diversificação de parceiros para a venda de suas matérias-primas estratégicas. Agora, essa situação mudou, e tanto Ibrahim Traoré em Burkina Faso quanto Ali Lamine Zeine estão expandindo suas relações com novos parceiros, como Rússia, China, Turquia e Irã, reforçando o peso do mundo multipolar diante dos antigos privilégios de um ator como a França.

Quando você olha para um país como o Níger, que conta com os mais baixos indicadores globais de desenvolvimento humano, com cifras de 44% de pobreza extrema, e ao mesmo tempo com as mais formidáveis ​​riquezas do mundo, no subsolo, um dos maiores produtores mundiais de urânio. Deve-se procurar os fatores que relacionam essa equação. Selecionei as informações para o leitor julgar por si mesmo.

Mas eu afirmo claramente que é uma relação na qual há cúmplices e culpados. É verdade que as relações internacionais são baseadas em interesses, mas o povo nigerino mostrou que tem a dignidade de um gigante. De agora em diante, as relações entre o Níger e o resto do mundo terão que levar em conta o respeito e o benefício mútuo.

P: Níger, Mali e Burkina Faso acabaram de anunciar sua decisão de deixar a CEDEAO. Como podemos avaliar o papel desta organização, considerando que ela até considerou invadir militarmente o Níger por um tempo?

A saída dos três países da CEDEAO em uma declaração conjunta, confirma o senso de dignidade da atual geração pan-africana no Sahel. A CEDEAO apareceu diante dos olhos dos milhões de africanos como uma ferramenta nas mãos do antigo mestre colonial, cujos fins são contrários aos desejos do povo. Mas as sanções que impuseram ao Níger podem ser o último prego no caixão que marca seu enterro final. Apesar de serem três países sem litoral, os mecanismos de solidariedade interafricana funcionaram, resistindo aos efeitos dessa punição que viola os próprios textos da organização.

Deixando de lado a inflação em alguns produtos, o povo nigerino declara que as sanções não são sentidas. O comissionamento da usina fotovoltaica de Gorou Banda (55.000 painéis solares, 30 Megawats), inaugurada em 26 de novembro, permitiu resolver o problema da dependência de eletricidade da vizinha Nigéria. Comboios comerciais de Burkina Faso garantiram a chegada de provisões.

Mesmo os interesses de setores econômicos de países beligerantes dentro da CEDEAO, como aqueles representados pelo Porto de Cotonou, Benin, decidiram levantar a proibição de retomar as relações comerciais com o Níger, em vista das perdas representadas pelo bloqueio de importações para aquele país (80% do volume de trânsito). Mas o Presidente da Câmara do Ministério do Comércio do Níger respondeu em uma declaração em 27 de dezembro, que ao manter as sanções ilegais da CEDEAO, os comerciantes foram convidados a continuar usando o porto de Lomé no Togo e comboios comerciais com Burkina Faso. Não podemos deixar de mencionar a iniciativa do Reino Marroquino, que propõe aos países da Aliança dos Estados do Sahel o acesso ao Sahel com suas mercadorias para o Atlântico. Estes são sinais do fracasso da tentativa neocolonial de isolar estes três países e de que o Pan-Africanismo veio para ficar.

A CEDEAO não era mais uma organização credível. Um dia antes da decisão histórica, uma delegação da CEDEAO, anunciou há mais de um mês, que tinha que se encontrar com o Primeiro-Ministro do Níger em Niamey para negociar o fim das sanções. Lamine Zeine tinha acabado de chegar de uma viagem pela Rússia, Turquia e Irã, e se ele não tivesse a intenção de receber a CEDEAO, poderia ter estendido sua visita ao exterior para conseguir acordos importantes de cooperação econômica.

Pois bem, acontece que o avião da delegação da CEDEAO não decolou de Abuja, sob o pretexto oficial de uma avaria técnica. Uma explicação que foi interpretada como pouco menos que grotesca e, em todo caso, uma falta de respeito imperdoável. Horas depois, Mali, Burkina Faso e Níger desferiram um golpe mortal a esta organização controlada remotamente por Paris. Esta ação abre as portas a outras medidas, como a adoção de uma moeda própria, afastando-se do mecanismo iníquo do franco CFA.

P: Como você avalia o processo que acontece de forma global? Ele está acontecendo no Sahel? Como vê-lo no contexto das transformações e desafios da África hoje?

– A transformação em curso no Sahel está em andamento, dando uma lição para aqueles que se acostumaram a lidar com a África desde uma atitude paternalista. Os povos da Europa devem distinguir entre o discurso de medo inoculado por seus líderes – medo de migrantes, medo do terrorismo, etc. e os eventos e ideais cheios de esperança que são passados ​​para a nova geração pan-africana.

A visão que propõem para o futuro de seus povos é rigorosa e completa. Em poucos meses, eles romperam com as falsas ilusões da democracia abstrata, a ponto de os povos desses três países começarem a ver os frutos da mudança e exigirem um período de transição mais longo do que o anunciado: exigem que os governos militares continuem por até dez ou quinze anos. É obviamente um pesadelo para o imperialismo.

Mas as medidas tomadas por esses governos – como os Voluntários para a Defesa do Povo (VDP) em Burkina Faso – devem ser uma Escola para o povo. Depois que a França não teve outra escolha a não ser sair pela porta dos fundos de uma maneira humilhante, é de se esperar que as provocações aumentem em 2024. Isso foi anunciado sem escrúpulos por um Ex-Agente Francês em um Aparelho de TV: De Agora em diante, o Plano consistirá em operações clandestinas de desestabilização. Para lidar com essas ações criminosas, é um requisito estar informado sobre o que está acontecendo em jogo lá. Para os povos do Norte, cujo bem-estar relativo teve como condição, amnésia e ignorância cultivadas por séculos é um dever identificar corretamente as aspirações da nova geração pan-africana. Para os povos do Sul, é necessário compartilhar experiências e esforços, denunciar a arma de guerra que são as sanções ilegais e construir mais solidariedade entre os povos. O que requer estudar a história e o presente de suas lutas, ou como disse Martí: "Os povos devem se apressar em se conhecer como se fossem lutar juntos uma batalha". Eu acrescentaria que hoje essa batalha, nas circunstâncias de um dos aspectos históricos da Nova Guerra Fria é o do anti-imperialismo.

[José Ernesto Nováez Guerrero. Escritor e jornalista cubano. Membro da Associação Hermanos Saíz (AHS). Coordenador do capítulo cubano da Rede em Defesa da Humanidade. Reitor da Universidade das Artes.]

Fonte: https://espanol.almayadeen.net/entrevistas/1814849/n%c3%adger-y-larevoluci%c3%b3n-en-el-sahel-africano

Rebelion 05.02.2024

retirado de: www.afgazad.com [https://afgazad.com/2024-EU-Langueges/020624-Niger-and-the-revolution.pdf]



quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

Burkina Faso: Mensagem do Presidente à Nação, Capitão Ibrahim Traoré. (Virada de Ano 2024/2025)

[Esta é a mensagem à Nação de SE Capitão Ibrahim TRAORÉ, Presidente de Faso, Chefe de Estado de 31 de dezembro de 2024.]

Presidente Ibrahim Traoré - 2024/2025

É um imenso prazer, neste dia, 31 de dezembro, que marca o final do ano de 2024, falar e conceder a vocês um resumo do ano de 2024 e também das perspectivas para o ano de 2025.

Mas antes de mais nada, permitam-me agradecer a Deus que cobre Burkina Faso com a sua mão benevolente e que nos permite permanecer de pé.

Presto vibrante homenagem a todas as nossas forças combatentes que lutam dia e noite, com o sacrifício supremo, para que nossa Pátria permaneça erguida.

Desejo uma rápida recuperação a todos os feridos nesta barbárie e rogo a Deus pelo repouso das almas de todos os que tombaram nesta batalha.

Gostaria também de prestar homenagem ao valente povo de Burkina Faso, daqui e de fora, que continua a contribuir maciçamente para que possamos travar esta guerra e também iniciar o nosso verdadeiro desenvolvimento.

2024 foi um ano cheio de desafios. No campo de batalha, o inimigo tentou recuperar a iniciativa estratégica para nos impedir de alcançar os nossos objetivos.

Graças às nossas valentes e resilientes forças de combate, conseguimos manter o rumo e manter sempre a iniciativa. Hoje, mais do que nunca, realizamos ofensivas e vamos onde desejamos para realizar ações; e rastreamos esses criminosos até seu último entrincheiramento. Isto foi possível graças a uma dinâmica que começou em 2023 e que continua.

Isto diz respeito em particular ao aprimoramento das nossas forças de combate com meios logísticos, meios de manobra e meios de fogo. E continuaremos a aumentá-las ao longo de 2025, para que o exército com que sonhamos possa ser uma realidade e possa proteger a nossa Pátria durante anos, décadas vindouras. Continuaremos a recrutar como ocorreu em 2024.

Só para este ano, recrutamos para as Forças Armadas Nacionais mais de 15.000 homens que ainda estão a treinar nos centros e que deverão reforçar as fileiras das forças combatentes durante o ano de 2025. Também continuaremos a treinar intensamente em colaboração com todos os amigos do Burkina Faso, para que possamos ter o exército que queremos.

Em termos de cobertura territorial, surgiram diversas unidades com um exército que é a Brigada Especial e de Intervenção Rápida; e continuaremos a reforçar as capacidades de todas as forças armadas para fazer face à ameaça atual e às ameaças futuras.

Neste sentido, haverá a criação durante o ano de 2025 de pelo menos cinco batalhões de intervenção rápida que serão colocados em áreas estratégicas. Ao nível do exército, criaremos um grupo expedicionário do Sahel. Tudo isto com o objetivo de poder adensar os campos de batalha para reconquistar todo o nosso território. Ao nível das forças de segurança, o reajustamento continuará de forma estratégica; e esperamos que estas forças possam se adaptar de forma inteligente e com grande flexibilidade à reconquista do território para poderem preencher as lacunas e corredores que podem ser utilizados por estes criminosos para se infiltrarem.

Continuaremos os esforços neste sentido com o apoio do povo para atualizar todas as nossas forças de combate, a fim de unir e reconquistar todo o nosso território. E para isso, a infraestrutura rodoviária é muito importante para apoiar a reconquista do território. Durante o ano de 2024, vários projetos foram de fato executados, nomeadamente ao nível da construção de estradas nas nossas cidades e no nosso campo.

Neste sentido, foi criada a iniciativa “Faso Mêbo” que acabará por dotar cada região de uma brigada de construção rodoviária. Os equipamentos das primeiras brigadas já estão a caminho e dentro de poucos dias estarão operacionais e deverão começar a agir para a felicidade das nossas forças combatentes no âmbito da sua mobilidade nos campos de batalha; e também disponibilizar certas áreas que não possuem boas estradas para que possam se comunicar.

Quem fala de estradas também fala do escoamento dos nossos produtos. Neste sentido, intensificamos, em termos agrícolas, a nossa produção neste ano de 2024. Os resultados são muito satisfatórios e damos graças a Deus que nos permitiu ter chuvas muito boas em todo o território nacional. A produção foi excepcional e continuaremos nessa direção.

Várias ideias foram introduzidas; sugestões de rendas como cacau, café, abacate, trigo e muitas outras que tornarão possível interromper mais ou menos as importações para Burkina Faso e também transformar essas matérias-primas, ou mesmo revendê-las no exterior para trazer moeda estrangeira ao nosso país. Tudo isto contribui para o desenvolvimento da nossa Pátria que estamos em vias de iniciar.

Na área da pecuária, foram realizados vários projetos durante o ano de 2024, nomeadamente a renovação da pecuária através de diversas iniciativas; mas também estamos em processo de criação de um sistema de alimentação de gado e peixes.

Várias campanhas de vacinação foram realizadas, gratuitas em alguns locais e subsidiadas em outros. Continuaremos os nossos esforços em favor do mundo camponês através de insumos e de toda a mecanização que se segue para apoiá-los na produção com vista a alcançar o nosso objetivo que é a autossuficiência alimentar e a exportação dos nossos excedentes. Nesse sentido, muitas indústrias surgirão para transformar nossas matérias-primas no local.

2024 foi um ano em que conseguimos inaugurar algumas fábricas, mas muitas mais serão inauguradas em 2025; algumas das quais vocês testemunharam o lançamento, mas outras também cujo lançamento não foi comunicado. Continuaremos nesta direção para podermos transformar as nossas matérias-primas no local para a felicidade do povo burquinense e exportar o que é processado no local. É com isto em mente que poderemos movimentar internamente a nossa economia e evitar importações de produtos alimentares em benefício dos produtos de nossas populações.

Do lado econômico, foram feitos muitos esforços e este é o lugar para felicitar todos os intervenientes que permitiram ao Burkina Faso manter sempre a cabeça erguida face às adversidades. Continuaremos os nossos esforços e muitos fundos foram reajustados para ter em conta as aspirações dos jovens. A Agência Nacional de Financiamento Inclusivo foi recentemente criada e o objetivo é oferecer empréstimos aos jovens e poder monitorizar as suas atividades.

O Ministério responsável pela Juventude foi instruído a criar unidades que farão o acompanhamento dos projetos que os jovens irão realizar e que poderão ser financiados através destas instituições que criamos.

Durante o primeiro trimestre de 2025, de tudo faremos para acelerar a implantação destas unidades porque não se trata apenas de conceder um empréstimo a um jovem e deixá-lo entregue à sua própria sorte. Queremos conceder o empréstimo e monitorizar a execução do projeto para o qual ele tomou o empréstimo, para o seu próprio benefício e o de outros burquinenses, assim como criar empregos. Continuaremos os nossos esforços no setor econômico e comercial para que a nossa juventude possa florescer plenamente com os recursos do país.

Na área da mineração, recuperamos o controle dos nossos recursos naturais. Metais como o ouro, a prata, o cobre devem ser explorados pelos burquinenses e estamos gradualmente a descobrir a experiência nacional que permite explorar estes recursos no local, para a felicidade do povo Burkinabè/burkinense.

Assim, incentivamos o surgimento de minas semimecanizadas e, muito em breve, industriais por meio da ação dos Burkinenses para Burkina Faso. O Estado está a fazer tudo o que pode para explorar esta expertise local em benefício da nossa Pátria.

Na área ambiental, vários projetos verão a luz do dia. Esperamos criar um bosque em cada província que contenha plantas e ervas medicinais que possam ser utilizadas pelos praticantes tradicionais e até pelos nossos pesquisadores. O Instituto de Pesquisa em Ciências da Saúde tem comprovado sucesso utilizando nossas plantas locais. Dei instruções para poder listar todos os equipamentos que este instituto necessita para aumentar a sua capacidade e explorar o nosso potencial em termos de plantas e ervas e então complementar certos medicamentos importados.

Continuaremos nessa direção para que possamos nos curar através de nossas plantas. O Ministério responsável pelo Meio Ambiente está fazendo todo o possível para garantir que este projeto veja a luz do dia em 2025. Outros projetos de grande escala em termos de reflorestamento e plantação de árvores através de instituições e todas as estruturas que podem ser designadas verão a luz do dia para que possamos tornar mais verde o nosso ambiente de vida, cuidar dele para que beneficie plenamente Burkina Faso. Isto melhorará consideravelmente a situação sanitária.

Estamos a fazer um grande esforço para que as plataformas técnicas dos vários centros de saúde e hospitais possam ser melhoradas. As atribuições ocorreram em 2024, nomeadamente ao nível de equipamentos médicos. Em 2025 assistiremos a um novo fornecimento de equipamento médico e especialmente de centros de saúde através da Iniciativa Presidencial de Saúde.

Serão construídas infraestruturas de saúde em vários municípios, porque queremos transformar os nossos centros de saúde e de promoção social em centros municipais que deverão ter plataformas técnicas suficientemente dotadas, em laboratórios, em imagem, para se aproximarem dos padrões dos centros médicos com unidades cirúrgicas. O objetivo é aproximar os cuidados de saúde primários das populações rurais e facilitar uma série de coisas nesta área.

No que diz respeito ao setor da educação, foram iniciadas diversas reformas. Podem parecer lentas para alguns, mas temos de avançar lenta e seguramente porque o sistema educativo em que nos encontramos está profundamente centrado num modelo que produz mais licenciados do que pessoas capazes de trabalhar e produzir riqueza. Infelizmente, esta é a observação. Mas estamos a trabalhar arduamente para, em primeiro lugar, mudar a infraestrutura escolar, adaptá-la e modernizá-la. Então, o currículo e os programas de ensino devem ser alterados. Queremos passar do ensino geral para o ensino técnico e profissional.

Essa mudança está em andamento e demorará um pouco para que possamos atingir o padrão que desejamos. Todos os setores da área da educação serão visitados e é por isso que a Iniciativa Presidencial para uma educação de qualidade para todos foi lançada e já foram iniciados os primeiros centros modernos que queremos e a construção continuará ao longo de 2025.

Camaradas,

No campo da administração, como vocês presenciaram o último julgamento sobre desvio de recursos em nossa administração, isso mostra o quanto nossa administração não está alinhada com os anseios do momento.

Além disso, os procedimentos estão obsoletos; é por isso que muitas medidas estão a ser tomadas para garantir que esta administração volte a funcionar como desejado. A CRD (Comissão de Regulação de Disfunções) foi criada pensando nisso e vamos trabalhar para que durante o mês de Janeiro esteja operacional e que os cidadãos possam denunciar casos de abusos, violações e disfunções na nossa administração. Continuaremos nesta lógica de retificar mas também de reforçar a digitalização na administração para combater eficazmente a corrupção; porque, enquanto os procedimentos não forem desmaterializados, os tempos de processamento dos arquivos serão sempre longos e surgirá corrupção.

A função pública é, portanto, instruída a alterar o RIME (Diretório Interministerial das Profissões do Estado) para poder integrar um determinado número de empregos para que determinadas pessoas que estavam sob contrato na administração possam ser efetivamente integradas e ter um plano de carreira. Continuaremos as reformas nesta área até que a nossa administração seja o que o povo quer.

No domínio da justiça, muitas reformas já ocorreram e continuaremos em 2025. Os tribunais consuetudinários terão de surgir e nestes tribunais consuetudinários serão, portanto, recrutados auditores de justiça de um novo tipo para gerir estes tribunais consuetudinários; isto é para ter em conta os nossos valores endógenos de resolução de conflitos e para ter uma justiça restaurativa e não uma justiça puramente punitiva.

Tendo em conta os nossos valores endógenos e envolvendo os nossos líderes consuetudinários e religiosos nos valores que são nossos, poderemos transformar a nossa justiça, aproximando-a do litigante. Estas reformas continuarão ao longo de 2025 e esperamos conseguir atingir o nosso objetivo antes do final do ano.

Na área da administração territorial, tal como anunciou o Primeiro-Ministro durante a sua Declaração de Política Geral, é necessária uma redistribuição do território; tendo em conta um certo número de aspectos, a superfície certamente, mas sobretudo estratégica e econômica. Isto será proposto em 2025. A descentralização é atualmente uma coisa muito boa em substância, mas na implementação está a sofrer.

Atualmente está sendo realizado um estudo ao nível da ANSAL-BF (Academia Nacional de Ciências, Artes e Letras de Burkina Faso) e CAPES (Centro de Análise de Políticas Econômicas e Sociais). O estudo, cujos resultados são esperados hoje, deverá permitir fazer um diagnóstico aprofundado do processo de descentralização. Neste sentido, um certo número de fundos foram suspensos enquanto se aguardam os resultados destes estudos para podermos rearticular e atribuir novas missões às autoridades das autarquias locais.

Na área da urbanização, durante o ano de 2025, após um estudo realizado em 2024, serão oferecidas à população burquinense opções para redesenhar as nossas cidades. Quando estas escolhas forem apresentadas, esperamos ter um resultado que nos permita redefinir as nossas cidades e sermos capazes de realizar uma urbanização que cumpra os padrões atuais. Esta dinâmica continuará em 2025 e a iniciativa “Faso Mêbo” também participará nesta dinâmica de urbanização. 

No domínio do desporto, este é o lugar para felicitar todos os jovens desportistas porque 2024 foi um ano desportivo. Vários atletas regressaram ao Burkina Faso com medalhas e carregaram a bandeira de Burkina Faso levantando alto. Felicito-os e encorajo-os a continuar nesta dinâmica para que em 2025 tenhamos ainda mais medalhas e a bandeira de Burkina Faso continue a tremular em todo o mundo. Ajudam a promover a imagem de Burkina Faso no estrangeiro.

No campo da diplomacia há certamente apoio da comunidade desportiva. Mas os nossos diplomatas têm estado envolvidos numa dinâmica agressiva desde 2023. Continuaremos nesta direção em 2025 para que a imagem do Burkina Faso, que brilha em todo o mundo, possa continuar a brilhar. E através disto, estamos numa confederação da Aliança dos Estados do Sahel. Estão atualmente em curso diversas ações para podermos estruturar esta aliança e estabelecê-la porque é o início de uma união soberana, em total liberdade, para que África possa tirar o exemplo desta aliança e poder brilhar.

A aliança não é apenas para os três países. A aliança pertence a todos os africanos que desejam soberania, independência e liberdade total. Continuamos a nossa abordagem para que seja uma união forte em todas as áreas, seja diplomacia, defesa e segurança e especialmente desenvolvimento. A nossa diplomacia brilha e continuaremos a nossa abordagem para que seja ainda mais forte e para que as representações de Burkina Faso no estrangeiro possam ter em conta a nossa diáspora e também ter em conta todos os amigos de Burkina Faso que desejam visitar Burkina Faso, e então participar no desenvolvimento do país.

É neste sentido que seremos um exemplo de soberania, um exemplo de dignidade e um motivo de orgulho em toda a África e em todo o mundo. O Instituto dos Povos Pretos deve ser um trampolim para atrair a Burkina Faso todos os pretos de todo o mundo que virão para recarregar as baterias, rever culturas e poder aprender com as nossas culturas, modernizá-las para desenvolver a nossa pátria. No museu será erguido um edifício para ter em conta certos aspectos da nossa cultura para que o instituto possa basear-se nestes valores e ensinar ao mundo inteiro quem o povo preto é, e quem a África é.

Desejo que 2025 seja um ano de perfeita saúde, sucesso, prosperidade, vitória para o nosso povo.

Pátria ou Morte, vamos vencer!


Capitão Ibrahim Traoré

Presidente da Faso

Chefe de Estado

https://burkina24.com/2024/12/31/burkina-faso-message-a-la-nation-du-president-le-capitaine-ibrahim-traore/