sábado, 28 de fevereiro de 2026

Os Pescadores, de Chigozie Obioma – Breve nota

O livro Os Pescadores, de Chigozie Obioma, é ambientado na cidade de Akure, na Nigéria, durante o início dos anos 90. A história é narrada por Ben, o mais novo de quatro irmãos principais (Ikenna, Boja, Obembe e Ben), e explora a desintegração de sua família após a partida do pai para um novo emprego em outra cidade.

Durante a ausência do pai, os filhos passaram a perder essa figura de autoridade, nisso já não iam pra escola com assiduidade. Certa vez, enquanto pescavam em um rio proibido por ser amaldiçoado, os irmãos encontraram um homem considerado louco na comunidade e que morava na rua, chamado Abulu, que profetizou que Ikenna, o irmão mais velho, seria morto por um de seus irmãos. Essa profecia desencadeou uma paranoia severa em Ikenna, que passou a se isolar e a desconfiar de sua própria família, levando a vida de todos a um clima decadente.

Livro 2016

A obra explora a tragédia do destino ou a questão de até que ponto um indivíduo tem controle sobre sua vida. Basta lembrar da figura de Abulu, o louco da cidade, atuando como um oráculo cuja profecia desencadeou o caminhar dos personagens em direção a um futuro terrível. Muitas tragédias aconteceram a partir de então, inclusive com mortes dos irmãos.

Com isso, o livro lida bastante com a superstição e o peso que as crenças proféticas podem ter na psique individual e familiar. Além disso, a obra aborda os laços familiares, o amor entre irmãos e como tais tragédias afetaram profundamente a saúde mental da mãe.

A mãe foi a pessoa da família mais profundamente afetada pelas tragédias ocorridas com seus filhos. As perdas e os sofrimentos causaram nela um grave colapso mental, sendo descrito que ela chegou a um estado de instabilidade psicológica ou “loucura” após a morte de dois de seus filhos. Devido à gravidade de sua condição, ela precisou ser afastada do convívio familiar e levada para uma instituição para tentar se recuperar.

O impacto nela foi tão marcante que o narrador, Ben, frequentemente pontua sua história com reflexões sobre o estado da mãe, utilizando frases recorrentes como “a primeira vez que isso aconteceu com minha mãe” para descrever os episódios resultantes de seu trauma.

É interessante notar que há, ao longo da história, menções e junções étnicas e linguísticas, pois além do pai trabalhar em outra cidade pelo Banco Central da Nigéria, a mãe tem uma visão e comportamento diferente do pai, então por vezes é visto a menção de coisas sobre Igbo, Iorubá, outras vezes há a presença do inglês como língua; e o desejo do pai que os filhos tenham uma educação ocidental, de acordo com o plano de mudança deles pro Canadá.

A narrativa também se situa em um período de agitação política na Nigéria, mencionando figuras como MKO Abiola e o clima de instabilidade da época. A história se passa durante o período em que MKO Abiola venceu as eleições. Mais expressamente, a política entra fisicamente na casa da família através de uma imagem ou calendário de Abiola. Em um momento de instabilidade mental e isolamento causado pela profecia, o irmão mais velho, Ikenna, rasga essa foto de Abiola. Esse ato de destruição simbólica desencadeia a fúria de Boja, intensificando as brigas e o comportamento errático entre os irmãos.

É possível inferir que a desintegração da família ocorre paralelamente à ordem política da época. A tensão e a violência que cercam o país parecem sustentar ou ecoar a decadência vivida pelos personagens. Ou seja, o ambiente de agitação política e transições de poder na Nigéria contribui para o clima de incerteza e medo que permeia a narrativa, afetando como os irmãos percebem o mundo ao seu redor.

Ademais, pode existir um paralelo simbólico entre a história da família e a história contemporânea da Nigéria na década de 1990. O livro explora as expectativas frustradas de um futuro melhor e de modernização do país, que são interrompidas pela instabilidade política e tomada de poder pelos militares.

A narrativa é construída de forma a emocionar intensamente, lidando com perdas e a desintegração dos laços entre os irmãos. Como ponto culminante ocorrem os atos de violência e um desejo de vingança contra Abulu, a quem os irmãos culpam pela destruição de sua unidade familiar.

O dia da democracia na Nigéria

O 12 de Junho foi originalmente a data das eleições presidenciais de 1993, o dia tornou-se um símbolo da luta pela democracia na Nigéria e é atualmente o “Dia da Democracia” oficial do país. MKO Abiola foi um empresário e político iorubá que venceu a eleição de 1993, mas foi impedido de assumir o poder pelos militares, tornando-se uma espécie de mártir da democracia nigeriana. A anulação da eleição pelo general Ibrahim Babangida e a subsequente prisão de Abiola pelo general Sani Abacha ilustram o período de ditadura militar e a resistência civil na Nigéria na década de 1990. Época também que ocorreu o destaque a um movimento crescente no sudoeste da Nigéria pela criação de uma "Nação Iorubá" independente, motivado por questões de insegurança e sentimento de marginalização.

A mudança do Dia da Democracia de 29 de maio para 12 de junho, realizada pelo presidente Muhammadu Buhari em 2018, foi uma forma de honrar o sacrifício de Abiola e a importância daquela eleição para o povo iorubá. Enquanto alguns líderes e ativistas defendem a separação total (secessão), outros grupos, como o Afenifere, defendem que a solução para a Nigéria é a reestruturação e o retorno ao federalismo descentralizado.

A eleição de 1993 é considerada até hoje como a mais livre e justa da história do país, e sua anulação é vista como uma ferida profunda na história política nigeriana.