sexta-feira, 3 de abril de 2026

Colonização, Quilombos: modos e significações – Breve Nota

Nêgo Bispo define a colonização não como algo positivo ou de desenvolvimento, mas como um processo de adestramento e domesticação. O objetivo é retirar a identidade do colonizado, renomeá-lo e torná-lo obediente.

Contra-colonização e colonização foi como Nêgo Bispo pretendeu conceituar os processos de enfretamento entre povos, raças e etnias em confronto direto no mesmo espaço físico geográfico.

E na proposta de contestar os conceitos criados pelo colonizador, Bispo sugere substituir termos coloniais: em vez de negros ou índios, utiliza-se afro-pindorâmicos - unindo a ancestralidade africana ao termo Pindorama, como os povos Tupi chamavam este território.

2ª edição do livro

“Pindorama (Terra das Palmeiras) é uma expressão tupi-guarani para designar todas as regiões e territórios da hoje chamada América do Sul.” Utilizou-se alternativamente colonização afro-pindorâmica para denominar a colonização nas Américas, enquanto um exercício de descolonização da linguagem e do pensamento.

O autor também estabelece uma dicotomia entre a cosmovisão cristã monoteísta (eurocentrada, vertical, hierárquica e linear) e a cosmovisão pagã politeísta (circular, horizontal, fundamentada nos elementos da natureza e no Cosmo). Bispo demonstra que a Igreja e a Bíblia foram ferramentas centrais para justificar a escravização e o "outrocídio" (assassinato do diferente). As bulas papais davam licença para invadir e reduzir povos não cristãos à escravidão perpétua.

A Bula de 1455, do Papa Nicolau V, é citada como um documento central que concedeu ao Rei de Portugal uma espécie de livre e ampla licença para invadir, capturar e submeter sarracenos, pagãos e outros "inimigos de Cristo". O texto papal determinava explicitamente que esses povos deveriam ser reduzidos à escravidão perpétua e que suas propriedades poderiam ser tomadas.

Como essa ordem foi emitida décadas antes de 1492, argumenta-se que a escravização dos povos indígenas (chamados por Bispo de afro-pindorâmicos) e africanos nas Américas não foi um acidente, mas o cumprimento de diretrizes religiosas já estabelecidas que não aceitavam a alteridade ou a diversidade.

Com isso, a Igreja Católica não foi apenas conivente, mas cumpriu um papel central no empreendimento colonial, um processo de "adestramento". Através das bulas e da pregação, a Igreja legitimou a ação do Estado e de suas forças armadas na escravização de corpos pretos e indígenas.

Além das bulas, a interpretação de passagens bíblicas reforçava a servidão. Citações de Gênesis foram usadas para apresentar o trabalho como um castigo ou maldição, enquanto passagens de Lucas (12:47) justificavam o uso de açoites e punições físicas contra o servo que não cumprisse a vontade de seu senhor.

A Igreja legitimava a colonização sob o pretexto de "salvar almas". Como os povos originários não professavam o cristianismo, os colonizadores sentiam-se autorizados a impor sua religião e cultura, tratando a escravização e a destruição das identidades locais como um ato de salvação e civilização.

Os ataques de ontem e de hoje

Enquanto o desenvolvimentismo capitalista vê a natureza apenas como mercadoria a ser explorada, a biointeração propõe uma relação de fortalecimento e valorização dos rios, florestas e animais como entes vivos. Diferente da visão linear europeia (início, meio e fim), o pensamento quilombola é circular. A vida é um ciclo onde se nasce da terra, vive-se dela e volta-se para ela, gerando um recomeço contínuo.

A circularidade quilombola, fundamentada no pensamento de Nêgo Bispo, altera profundamente a visão sobre a vida ao substituir a lógica linear europeia por um ciclo contínuo de renovação e conexão com a terra. Enquanto a visão eurocristã organiza a vida de forma linear (início, meio e fim), a cosmovisão quilombola e afro-pindorâmica propõe o método do "princípio, meio e princípio" (ou "começo, meio e começo"). Nessa visão, a vida não caminha para um encerramento definitivo, mas para um eterno recomeço.

Novamente, a circularidade ensina que o ser humano vem da terra, nasce dela, vive por ela e, ao morrer, retorna a ela. Esse retorno não é visto como um fim, mas como o adubo para que uma nova geração (netos, filhos, avós) floresça, mantendo o ciclo vivo. A visão circular valoriza o legado e a continuidade, entendendo que as gerações se intercalam e se sustentam mutuamente. Isso contrasta com o pensamento colonial que, muitas vezes, ignora a ancestralidade em favor de um progresso desenfreado.

O desenvolvimentismo é uma característica ligada ao Estado, ao capitalismo e ao colonialismo, que utiliza o "Cosmo" (rios, mares, florestas, fauna e flora) apenas como mercadoria para gerar lucro e expansão econômica. Em contrapartida, a biointeração propõe o fortalecimento, o reconhecimento e a valorização do Cosmo, tratando esses elementos como entes fundamentais da vida.

O desenvolvimentismo é o braço econômico de instituições colonizadas e do Estado, que não se preocupa com o equilíbrio do ecossistema. A biointeração é apresentada como uma proposta contra-colonial que resgata as culturas afro-pindorâmicas para criar uma forma de articulação que harmonize os seres humanos com o universo ao seu redor.

Em suma, enquanto o desenvolvimentismo busca a transformação de toda a vida em recurso explorável, a biointeração busca a manutenção da vida através da renovação cíclica e do respeito aos elementos naturais.

Por fim, a Nação Afro-pindorâmica de Nêgo Bispo é um projeto de emancipação e autogoverno que rejeita as instituições do Estado e do capital para viver de acordo com as leis da terra e da ancestralidade. Não existe colonialismo sem o Estado, que garante a subordinação e o racismo através de suas forças armadas, judiciais e legislativas. E na prática contra-colonial, Nêgo Bispo é apresentado como o expoente da contra-colonização, uma postura que não busca apenas entender o colonialismo, mas combatê-lo a partir da experiência e autonomia intelectual quilombola.

Confluências x Transfuências (trecho do livro)

“Confluências é a lei que rege a relação de convivência entre os elementos da natureza e nos ensina que nem tudo que se ajunta se mistura, ou seja, nada é igual. Por assim dizer, a confluência rege também os processos de mobilização provenientes do pensamento plurista dos povos politeístas. Transfluência é a lei que rege as relações de transformação dos elementos da natureza e nos ensina que nem tudo que se mistura se ajunta.

“Por assim ser, a transfluência rege também os processos de mobilização provenientes do pensamento monista do povo monoteísta.

“É a partir dessas leis que se geram os grandes debates entre a realidade e a aparência, ou seja, entre o que é orgânico e o que é sintético.” (Página 68)

[...]

“Nos debates contemporâneo também podemos perceber alguns esforços de transfluência, quando analisamos as tentativas de conjugação entre diferentes princípios e/ou perspectivas no interior de alguns processos produtivos tais como: desenvolvimento sustentável, produção orgânica, agroecológica, agroflorestal, permacultura, etnodesenvolvimento, etc. Trata-se de uma tentativa de aproximação de pensamentos, conceitos e valores. Porém, quando partimos para a execução propriamente dita desses pensamentos, conceitos e valores, nos deparamos novamente com os grandes confrontos.”

“Vale lembrar que os colonizadores, segundo podemos interpretar em GENESIS, foram desterritorializados ao ouvir do seu Deus que as ervas eram espinhosas e daninhas, que para se alimentarem tinham que comer do suor do próprio corpo, ou seja, transformar os elementos da natureza em produtos manufaturados e/ou sintéticos. Foi nesse exato momento que se configurou a desterritorialização e a desnaturalização do povo cristão monoteísta, fazendo com que esses só se sentissem autorizados pelo seu Deus a fazer uso dos produtos das suas artificialidades.

“Isso fez com que esse povo desterritorializado, antinatural, eternamente castigado e aterrorizado pelo seu Deus, sentisse a necessidade de se reterritorializar em um território sintético. Para tanto, se espraiaram pelo mundo afora como intuito de invadir os territórios dos povos pagãos politeístas e descaracteriza-los através dos processos de manufaturamento, para a satisfação das suas artificialidades.

“Como o povo politeísta interage com suas Deusas e Deuses e os elementos da natureza presente em seus territórios, encontra ali todas as condições naturais e biointerativas para viverem satisfatoriamente, não precisando invadir territórios alheios, sim visita-los, buscando sempre se adequar ou interagir com os povos dos outros territórios durante o período de visitação. Às vezes podem até ficar nos territórios visitados, se para isso houver comum acordo.

“Com isso podemos afirmar que a guerra da colonização nada mais é que uma guerra territorial, de disputa de territorialidades.” (Páginas 73 e 74).


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