Chegou a vez de me debruçar sobre a ficção do escritor baiano Itamar Vieira Junior. Bom, não o seu sucesso Torto Arado, mas o Salvar o Fogo. Acredito que comecei por este somente para fugir da ondas em que todas as pessoas devem seguir os mesmos caminhos. Confesso que me surpreendi com a leitura, pois, após passar por um inevitável incômodo com o desenrolar da história, logo pude compreender o pano de fundo temático que, apesar de ter lido na apresentação que o autor seria “épico e lírico, com o poder de emocionar, encantar e indignar”. E evidenciando ainda que a obra desvelaria “a brutalidade da religião imposta, a violência nas relações em torno da posse da terra e o racismo que atravessa – como uma lança – o coração dos personagens... Uma trama permeada de traumas do colonialismo, que permanecem vivos, como uma ferida que se mantém aberta.”; eu duvidei, por isso a surpresa. Até porque eu sou meio receoso com essa onda de decolonialidade que se mostra destituída de uma perspectiva revolucionária contra o sistema branco colonial, escravista e capitalista, em termos de passado e de presente.
Com isso, na obra há uma cartografia profunda da subalternidade
e da resistência; e, sob o olhar da crítica decolonial (informação que vi em
suas entrevistas), o livro não apenas narra uma história, mas disseca a
colonialidade do poder que ainda estrutura a sociedade brasileira. O simbolismo
do "fogo" que intitula o romance é operado em uma dialética sofisticada:
representa, simultaneamente, o salto civilizatório da humanidade (o domínio
técnico, o calor, o cozimento) e o ímpeto do desejo humano, mas também a fúria
da destruição que consome biomas como a Caatinga e a Amazônia. Salvar o fogo,
nesta narrativa, é o esforço hercúleo de preservar a chama da vida e da memória
ancestral em um território marcado por cinzas históricas. Essa ambiguidade é
selada na cena inaugural do parto, onde a vida emerge em um cenário de dor,
estabelecendo o fundamento para uma análise sobre a persistência dos traumas fundacionais.
A trama se assenta na comunidade de Tapera, às margens do
Rio Paraguaçu, um espaço onde a herança africana-indígena é a própria carne da
narrativa. A cena inicial, o nascimento de Moisés, funciona como uma poderosa
metáfora para o trauma fundacional do mito brasileiro. O desejo de infanticídio
manifestado pela mãe, após ter engravidado fruto do estrupo, espelha a origem
violenta do próprio país: um território violado onde povos originários foram
dizimados e filhos da diáspora africana foram inseridos sob condições
aviltantes. A identidade de Tapera é forjada sob três pilares que evidenciam as
tensões da formação nacional:
(a) A herança africana e indígena: A coexistência de saberes
tradicionais e cosmogonias que resistem, de forma subterrânea, ao apagamento
imposto. (b) O apagamento de saberes: A supressão sistemática das lógicas
ancestrais por um sistema que as rotula como inferiores ou inexistentes. (c) A
presença onipresente do colonizador: A percepção de que os corpos de Tapera
carregam a história tanto dos oprimidos quanto dos opressores, pois, como
indica o autor, "os brancos também se misturaram àquela gente",
cristalizando a tensão racial na própria biologia dos personagens.
Essa origem traumática nos conduz inevitavelmente ao exame
das forças institucionais que perpetuam a lógica colonial no cotidiano rural.
O cotidiano em Tapera é orbitado por um Mosteiro católico do
século XVII, instituição que personifica a longevidade do projeto colonial. Na
obra, a Igreja não é um mero cenário, mas uma personagem histórica central na
manutenção da exploração. Sabe-se que a "Cruz" foi o primeiro
elemento plantado pelo colonizador, antes mesmo das paredes, simbolizando o
imediato apagamento das espiritualidades pré-existentes. A Igreja atua em uma
dualidade perversa: provê o letramento formal a Moisés, mas simultaneamente
opera como um agente de abuso, violência e exploração econômica da mão de obra
local, mantendo a estrutura latifundiária que subalterniza os habitantes da
região. O Mosteiro representa um passado que se recusa a passar, agindo como
senhor de terras e de destinos, convertendo a fé institucionalizada em ferramenta
de controle e silenciamento.
A personagem Luzia surge como o ponto focal da resistência e
do sofrimento feminino, sendo o corpo onde as cicatrizes da colonização são
mais visíveis. A opressão de gênero na obra é indissociável do estigma
religioso; ao guardar uma espiritualidade ancestral que não se curva aos dogmas
cristãos, Luzia é empurrada para a margem e rotulada como "bruxa" ou
"feiticeira". Esse processo de demonização do saber feminino e
ancestral é uma ferramenta clássica de controle social.
Dentro dessa estrutura de trauma, o autor busca desenvolver algo
como violência travestida de afeto, no cotidiano. Em um cenário de privação
extrema e herança violenta, o cuidado não se manifesta por palavras de carinho,
mas por gestos ríspidos de sobrevivência. O afeto é silenciado pela dor
histórica, revelando-se apenas em atos como o estender de um prato de comida ou
o auxílio mudo ao arrumar um cabelo. É a humanidade possível dentro de um regime
desfavorável, onde o amor precisa ser decifrado em meio à brutalidade do
cotidiano.
É interessante se ater que há a escolha técnica da polifonia
— a multiplicidade de vozes narrativas. Ao alternar as perspectivas de Moisés,
Luzia e outros (narrador onisciente), o autor abdica da verdade única em favor
de uma verdade em camadas. Com isso algumas passagens são relembradas para cada
devido prosseguimento do enredo. Essa estratégia reflete o conceito de "devir":
o ser humano em fluxo, em constante transformação, em oposição a uma identidade
estática e colonial. Os segredos guardados entre narrador e leitor mimetizam a
própria vastidão da condição humana, onde a intimidade é o último reduto de liberdade.
A forma que entendo
Há uma série de aspectos que precisamos compreender acerca
da pessoa preta atualmente. Um deles é como os pretos, em geral, incrustaram em
si uma atitude de eterna subserviência aos brancos – que para agravar a
situação, essa subserviência se estende também mediante a relação preta com
outros povos no mundo, basta que eles tenham o interesse de exploração
econômica, dominação e expansão. Aliás, há muito já se tem revelado, analisado,
e destrinchado acerca desse aspecto, mas sua aplicabilidade é extremamente
complexa justamente porque se trata da questão da mente – a mentalidade preta,
ou seja, trata-se da escravidão mental ou colonização mental.
O que isso significa, em suma? Que desse modo não
conseguimos mais enxergar de forma evidente os grilhões que nos prendem, nos
levando a crer que o pior já passou e agora estamos livres. No Brasil, por
exemplo, isso se manifesta pela propagação do mito da democracia racial: “Um
férreo rígido monopólio do poder permanece, no Brasil, nas mãos da camada
“branca” minoritária, desde os tempos coloniais até os dias de hoje, como se
fosse um fenômeno de ordem “natural” ou de um perene direito “democrático”. O
mito da “democracia racial” está fundado sobre tais premissas dogmáticas”
(NASCIMENTO: 2002, p.31) onde o racismo se torna um crime perfeito, ou seja, um
racismo oculto operando diante de todas as evidências: “....a ideologia do
supremacismo branco, no Brasil denominada metaforicamente de ‘democracia
racial’ ou de ‘metarracismo’, em sua dinâmica cotidiana significa a prática de
um tipo de violência oculta, insidiosa e difusa, mas de alto teor destrutivo.”
(NASCIMENTO: 2002, p.283)
Sendo assim, é preciso situar a particularidade histórica
concernente ao povo preto como um todo no mundo, ou ainda, é preciso apontar
pelo menos dois desastres que desmantelou e interrompeu o nosso desenvolvimento
civilizatório por séculos, sendo esses: o Holocausto da Escravidão Africana e o
advento colonização europeia! No Brasil o sistema escravista perdurou por quase
400 anos, no geral de 1500 até 1888. No continente africano se sobressai como
colonização a Conferência de Berlin, que foi a partilha arbitrária do
continente entre vários países europeus. (1885), desde então invasão intensiva.
Partindo do fato que nós, o povo preto, fomos colonizados no continente-mãe,
África, e de lá fomos sequestrados para sermos escravizados no que agora
chamamos diáspora, e que esse sistema escravista e colonial foi perpetrado
pelos brancos/europeus sob a pretensa supremacia branca, para que os brancos
pudessem se desenvolver econômica, social e politicamente através do roubo,
estupro e genocídio de nosso povo, ainda sentimos, enquanto povo, todas as
consequências diretas e indiretas dessas barbaridades racistas. E para ir mais
na raiz, chamamos mesmo de Grande Desastre (Maafa) a investida de destruição
contra civilizações e povos africanos desde pelo menos 3000 anos atrás,
sobretudo por árabes e europeus nos últimos 1500 anos.
“Marimba Ani (1994) introduz o conceito de maafa e o define
como grande desastre e infortúnio de morte e destruição além das convenções e
da compreensão humanas. Para mim, a característica básica do maafa é a negação
da humanidade dos africanos, acompanhada do desprezo e do desrespeito,
coletivos e contínuos, ao seu direito de existir. O maafa autoriza a
perpetuação de um processo sistemático de destruição física e espiritual dos
africanos, individual e coletivamente.” (NOBLES: 2009)
Isso não é tudo, mas por si só já denota o caráter singular
de nossos desafios de luta revolucionária.
Após todo esse grande desastre nos foi relegada uma falsa
abolição e uma falsa independência. A liberdade e independência concedida e,
por vezes conquistada, se deu, por diversos fatores, somente de forma nominal.
Com isso, dentre tantos outros males, nos deixou terríveis resquícios de
descarrilamento: "A escravidão controlada por árabes e europeus resultou
num grande descarrilhamento na trajetória do desenvolvimento africano...(...) A
metáfora do descarilhamento é importante porque quando isso ocorre o trem
continua em movimento fora dos trilhos; o descarrilhamento cultural do povo
africano é difícil de detectar porque a vida e a experiência continuam. A
experiência do movimento (ou progresso) humano continua, e as pessoas acham
difícil perceber que estão fora de sua trajetória de desenvolvimento."
(NOBLES, 2009) total, e que apesar da continuidade do saque de nossos bens
naturais/minerais, de nossa força de trabalho, de nossas terras e seres
humanos, não conseguimos avançar rumo à autodeterminação do povo preto no
sentido de romper com esses saques e todo o tipo de brutalidade que nos relega
à pobreza e indignidade enquanto seres humanos na Terra. O pior é que, em
geral, nem estamos mais reivindicando ou mesmo desejando nossa liberdade e
independência plena de nossa própria nação, pois ainda cultuamos os grilhões,
agora, da escravidão mental e continuamos a aceitar o veneno da colonização
mental de maneira acrítica.
Abdias Nascimento, O Quilombismo: Documentos de uma
militância pan-africanista. (Fundação Cultural Palmares: 2002)
Wade Nobles, “Sakhu Sheti: retomando e reapropriando um foco
psicológico afrocentrado”, em Coleção Sankofa, volume IV.
