quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Breve nota: "Salvar o Fogo" de Itamar Vieira Junior

Chegou a vez de me debruçar sobre a ficção do escritor baiano Itamar Vieira Junior. Bom, não o seu sucesso Torto Arado, mas o Salvar o Fogo. Acredito que comecei por este somente para fugir da ondas em que todas as pessoas devem seguir os mesmos caminhos. Confesso que me surpreendi com a leitura, pois, após passar por um inevitável incômodo com o desenrolar da história, logo pude compreender o pano de fundo temático que, apesar de ter lido na apresentação que o autor seria “épico e lírico, com o poder de emocionar, encantar e indignar”. E evidenciando ainda que a obra desvelaria “a brutalidade da religião imposta, a violência nas relações em torno da posse da terra e o racismo que atravessa – como uma lança – o coração dos personagens... Uma trama permeada de traumas do colonialismo, que permanecem vivos, como uma ferida que se mantém aberta.”; eu duvidei, por isso a surpresa. Até porque eu sou meio receoso com essa onda de decolonialidade que se mostra destituída de uma perspectiva revolucionária contra o sistema branco colonial, escravista e capitalista, em termos de passado e de presente.   


Com isso, na obra há uma cartografia profunda da subalternidade e da resistência; e, sob o olhar da crítica decolonial (informação que vi em suas entrevistas), o livro não apenas narra uma história, mas disseca a colonialidade do poder que ainda estrutura a sociedade brasileira. O simbolismo do "fogo" que intitula o romance é operado em uma dialética sofisticada: representa, simultaneamente, o salto civilizatório da humanidade (o domínio técnico, o calor, o cozimento) e o ímpeto do desejo humano, mas também a fúria da destruição que consome biomas como a Caatinga e a Amazônia. Salvar o fogo, nesta narrativa, é o esforço hercúleo de preservar a chama da vida e da memória ancestral em um território marcado por cinzas históricas. Essa ambiguidade é selada na cena inaugural do parto, onde a vida emerge em um cenário de dor, estabelecendo o fundamento para uma análise sobre a persistência dos traumas fundacionais.

A trama se assenta na comunidade de Tapera, às margens do Rio Paraguaçu, um espaço onde a herança africana-indígena é a própria carne da narrativa. A cena inicial, o nascimento de Moisés, funciona como uma poderosa metáfora para o trauma fundacional do mito brasileiro. O desejo de infanticídio manifestado pela mãe, após ter engravidado fruto do estrupo, espelha a origem violenta do próprio país: um território violado onde povos originários foram dizimados e filhos da diáspora africana foram inseridos sob condições aviltantes. A identidade de Tapera é forjada sob três pilares que evidenciam as tensões da formação nacional:

(a) A herança africana e indígena: A coexistência de saberes tradicionais e cosmogonias que resistem, de forma subterrânea, ao apagamento imposto. (b) O apagamento de saberes: A supressão sistemática das lógicas ancestrais por um sistema que as rotula como inferiores ou inexistentes. (c) A presença onipresente do colonizador: A percepção de que os corpos de Tapera carregam a história tanto dos oprimidos quanto dos opressores, pois, como indica o autor, "os brancos também se misturaram àquela gente", cristalizando a tensão racial na própria biologia dos personagens.

Essa origem traumática nos conduz inevitavelmente ao exame das forças institucionais que perpetuam a lógica colonial no cotidiano rural.

O cotidiano em Tapera é orbitado por um Mosteiro católico do século XVII, instituição que personifica a longevidade do projeto colonial. Na obra, a Igreja não é um mero cenário, mas uma personagem histórica central na manutenção da exploração. Sabe-se que a "Cruz" foi o primeiro elemento plantado pelo colonizador, antes mesmo das paredes, simbolizando o imediato apagamento das espiritualidades pré-existentes. A Igreja atua em uma dualidade perversa: provê o letramento formal a Moisés, mas simultaneamente opera como um agente de abuso, violência e exploração econômica da mão de obra local, mantendo a estrutura latifundiária que subalterniza os habitantes da região. O Mosteiro representa um passado que se recusa a passar, agindo como senhor de terras e de destinos, convertendo a fé institucionalizada em ferramenta de controle e silenciamento.

A personagem Luzia surge como o ponto focal da resistência e do sofrimento feminino, sendo o corpo onde as cicatrizes da colonização são mais visíveis. A opressão de gênero na obra é indissociável do estigma religioso; ao guardar uma espiritualidade ancestral que não se curva aos dogmas cristãos, Luzia é empurrada para a margem e rotulada como "bruxa" ou "feiticeira". Esse processo de demonização do saber feminino e ancestral é uma ferramenta clássica de controle social.

Dentro dessa estrutura de trauma, o autor busca desenvolver algo como violência travestida de afeto, no cotidiano. Em um cenário de privação extrema e herança violenta, o cuidado não se manifesta por palavras de carinho, mas por gestos ríspidos de sobrevivência. O afeto é silenciado pela dor histórica, revelando-se apenas em atos como o estender de um prato de comida ou o auxílio mudo ao arrumar um cabelo. É a humanidade possível dentro de um regime desfavorável, onde o amor precisa ser decifrado em meio à brutalidade do cotidiano.

É interessante se ater que há a escolha técnica da polifonia — a multiplicidade de vozes narrativas. Ao alternar as perspectivas de Moisés, Luzia e outros (narrador onisciente), o autor abdica da verdade única em favor de uma verdade em camadas. Com isso algumas passagens são relembradas para cada devido prosseguimento do enredo. Essa estratégia reflete o conceito de "devir": o ser humano em fluxo, em constante transformação, em oposição a uma identidade estática e colonial. Os segredos guardados entre narrador e leitor mimetizam a própria vastidão da condição humana, onde a intimidade é o último reduto de liberdade.

 

A forma que entendo

Há uma série de aspectos que precisamos compreender acerca da pessoa preta atualmente. Um deles é como os pretos, em geral, incrustaram em si uma atitude de eterna subserviência aos brancos – que para agravar a situação, essa subserviência se estende também mediante a relação preta com outros povos no mundo, basta que eles tenham o interesse de exploração econômica, dominação e expansão. Aliás, há muito já se tem revelado, analisado, e destrinchado acerca desse aspecto, mas sua aplicabilidade é extremamente complexa justamente porque se trata da questão da mente – a mentalidade preta, ou seja, trata-se da escravidão mental ou colonização mental.

O que isso significa, em suma? Que desse modo não conseguimos mais enxergar de forma evidente os grilhões que nos prendem, nos levando a crer que o pior já passou e agora estamos livres. No Brasil, por exemplo, isso se manifesta pela propagação do mito da democracia racial: “Um férreo rígido monopólio do poder permanece, no Brasil, nas mãos da camada “branca” minoritária, desde os tempos coloniais até os dias de hoje, como se fosse um fenômeno de ordem “natural” ou de um perene direito “democrático”. O mito da “democracia racial” está fundado sobre tais premissas dogmáticas” (NASCIMENTO: 2002, p.31) onde o racismo se torna um crime perfeito, ou seja, um racismo oculto operando diante de todas as evidências: “....a ideologia do supremacismo branco, no Brasil denominada metaforicamente de ‘democracia racial’ ou de ‘metarracismo’, em sua dinâmica cotidiana significa a prática de um tipo de violência oculta, insidiosa e difusa, mas de alto teor destrutivo.” (NASCIMENTO: 2002, p.283)

Sendo assim, é preciso situar a particularidade histórica concernente ao povo preto como um todo no mundo, ou ainda, é preciso apontar pelo menos dois desastres que desmantelou e interrompeu o nosso desenvolvimento civilizatório por séculos, sendo esses: o Holocausto da Escravidão Africana e o advento colonização europeia! No Brasil o sistema escravista perdurou por quase 400 anos, no geral de 1500 até 1888. No continente africano se sobressai como colonização a Conferência de Berlin, que foi a partilha arbitrária do continente entre vários países europeus. (1885), desde então invasão intensiva. Partindo do fato que nós, o povo preto, fomos colonizados no continente-mãe, África, e de lá fomos sequestrados para sermos escravizados no que agora chamamos diáspora, e que esse sistema escravista e colonial foi perpetrado pelos brancos/europeus sob a pretensa supremacia branca, para que os brancos pudessem se desenvolver econômica, social e politicamente através do roubo, estupro e genocídio de nosso povo, ainda sentimos, enquanto povo, todas as consequências diretas e indiretas dessas barbaridades racistas. E para ir mais na raiz, chamamos mesmo de Grande Desastre (Maafa) a investida de destruição contra civilizações e povos africanos desde pelo menos 3000 anos atrás, sobretudo por árabes e europeus nos últimos 1500 anos.

“Marimba Ani (1994) introduz o conceito de maafa e o define como grande desastre e infortúnio de morte e destruição além das convenções e da compreensão humanas. Para mim, a característica básica do maafa é a negação da humanidade dos africanos, acompanhada do desprezo e do desrespeito, coletivos e contínuos, ao seu direito de existir. O maafa autoriza a perpetuação de um processo sistemático de destruição física e espiritual dos africanos, individual e coletivamente.” (NOBLES: 2009)

Isso não é tudo, mas por si só já denota o caráter singular de nossos desafios de luta revolucionária.

Após todo esse grande desastre nos foi relegada uma falsa abolição e uma falsa independência. A liberdade e independência concedida e, por vezes conquistada, se deu, por diversos fatores, somente de forma nominal. Com isso, dentre tantos outros males, nos deixou terríveis resquícios de descarrilamento: "A escravidão controlada por árabes e europeus resultou num grande descarrilhamento na trajetória do desenvolvimento africano...(...) A metáfora do descarilhamento é importante porque quando isso ocorre o trem continua em movimento fora dos trilhos; o descarrilhamento cultural do povo africano é difícil de detectar porque a vida e a experiência continuam. A experiência do movimento (ou progresso) humano continua, e as pessoas acham difícil perceber que estão fora de sua trajetória de desenvolvimento." (NOBLES, 2009) total, e que apesar da continuidade do saque de nossos bens naturais/minerais, de nossa força de trabalho, de nossas terras e seres humanos, não conseguimos avançar rumo à autodeterminação do povo preto no sentido de romper com esses saques e todo o tipo de brutalidade que nos relega à pobreza e indignidade enquanto seres humanos na Terra. O pior é que, em geral, nem estamos mais reivindicando ou mesmo desejando nossa liberdade e independência plena de nossa própria nação, pois ainda cultuamos os grilhões, agora, da escravidão mental e continuamos a aceitar o veneno da colonização mental de maneira acrítica.

 

Abdias Nascimento, O Quilombismo: Documentos de uma militância pan-africanista. (Fundação Cultural Palmares: 2002)

Wade Nobles, “Sakhu Sheti: retomando e reapropriando um foco psicológico afrocentrado”, em Coleção Sankofa, volume IV.

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